Não Aprendi Dizer Adeus

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Hoje acordei com uma sensação diferente. Sabe quando você levanta da cama e, antes mesmo de tomar o café, já percebe que não vai ser um dia qualquer?

É bem assim que eu estou me sentindo. Até porque, definitivamente, este não é um dia qualquer para mim.

Hoje à noite eu me despeço da seleção brasileira. Meu último jogo com a camisa que vesti em sete Copas do Mundo e sete Olimpíadas. Pode parecer clichê, mas acho que, no meu caso, eu tenho permissão pra dizer que foi uma vida dedicada à Seleção.

Assim que eu pisar no gramado da Arena da Amazônia, será inevitável não lembrar de uma frase que minha mãe não se cansa de repetir.

“Nada cai do céu, só chuva.” 

Dona Celeste tem razão. Ao longo desses 26 anos servindo ao time feminino do meu país, nada caiu do céu no meu colo. Nada, nada, nada. 

Formiga despedida seleção brasileira Players Tribune
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Eu tive que ralar muito para conquistar meu espaço e provar quem eu era. Não somente como jogadora, mas também como… Miraildes Maciel Mota. Mulher. Negra. Nordestina. Lésbica. E, acima de tudo, como uma pessoa que nunca pensou em fazer outra coisa que não fosse jogar futebol.

Aliás, nada caiu do céu para mim desde o começo. Minha primeira memória de infância sou eu ganhando uma boneca, o presente mais esperado por todas as meninas da minha idade. Mas, quando eu abro a caixa do presente, eu não me sinto nem um pouco feliz. Eu estou frustrada, meio decepcionada, sabe? Ao contrário das outras meninas da minha idade, eu não queria uma boneca. Eu queria uma bola!

Não conheci meu pai, que morreu quando eu tinha oito meses. No Lobato, subúrbio de Salvador, minha mãe criou cinco filhos sozinha. Como era a única menina, eu ficava com inveja dos meus irmãos, que sempre ganhavam bolas de presente. 

Por que só eu tenho que ganhar boneca?, pensava.

Aí eu tinha que improvisar, né? Depois de abrir o presente, eu olho pra boneca, a boneca olha pra mim… Eu olho pra boneca de novo e… Arranco a cabeça dela, coitada. Agora, sim, eu saio toda feliz pela casa, chutando a cabeça da boneca como se fosse a minha bola. Porque o meu negócio é esse… Bola! Bola! Bola!

Formiga ultimo jogo seleção Brasil
Sam Robles

Só que os meus irmãos mais velhos não entendiam. Eu era proibida de jogar com eles. Na verdade, eu era proibida de jogar, ponto. Quando conseguia uma brechinha e participava dos babas na rua, eu me sentia muito feliz. O pessoal até brincava, dizendo que eu jogava melhor que eles. Eu ficava me achando… Hahah!

Mas aí, quando chegava em casa, eu apanhava dobrado. Por ter desrespeitado a ordem de não sair pra jogar e por ter jogado melhor que eles. O que para eles poderia parecer uma humilhação, para mim era só diversão. Eu não queria provar que era melhor que ninguém. Eu queria jogar bola e mais nada.

A cada vez que apanhava, eu engolia o choro e ia jogar de novo. Eu não desistiria tão fácil, apesar de todo preconceito que sofria.

Os vizinhos também me julgaram muito. Me chamavam de mulher-macho, porque eu era a única que jogava no meio dos meninos. Eu preferia que me dessem um tapa do que zombassem de mim com aqueles apelidos. Doía muito escutar essas coisas, mas pior mesmo era quando falavam besteira no ouvido da minha mãe.

“Celeste, toma cuidado! Mira vai acabar engravidando se continuar jogando na rua desse jeito.”

Isso me deixava muito, muito mal.

Afinal, eu era apenas uma criança. E, como eu disse, o único motivo de estar na rua era correr atrás da bola.

Por sorte, minha mãe nunca deixou se levar pelo o que os outros diziam, nem mesmo pela insistência dos meus irmãos em me proibir de jogar. 

Formiga Olimpiada 1996 seleçao brasileira futebol feminino
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Ela sempre pediu a Deus uma filha mulher. Primeiro vieram meus quatro irmãos, e depois eu cheguei para realizar o sonho dela. Embora o meu fosse praticar um esporte visto como “coisa de homem”, ela me apoiou do primeiro ao último minuto. Se meus irmãos diziam que eu não podia, ela vinha me incentivar: “Tome dinheiro, minha filha, vá jogar sua bola!”.

No meio de tantos “nãos”, minha mãe remava contra a maré e acreditava nos meus sonhos. Eu sempre quis retribuir de alguma forma o que ela fazia por mim. Naquela época, eu podia fazer pouco, mas tentava realizar todas as vontades dela. Tinha dia que eu pegava um carrinho de mão e andava uns quatro quilômetros até outro bairro pra poder comprar as coisas que ela pedia. Fazia isso com tanto prazer que, se fosse preciso dar duas, três viagens com o carrinho cheio, eu daria numa boa, porque aquela mulher merecia tudo que me proporcionava em dobro.

Outra mulher que foi um anjo na minha vida é Dilma Mendes. Olha, o que essa danada representa para o futebol feminino não tá escrito… No tempo dela, a modalidade era proibida para as mulheres no Brasil. Não como eu era pelos meus irmãos, mas proibição total, imposta por lei. Ela foi uma das pioneiras do esporte em nosso país, jogando escondida e correndo da polícia, já que as atletas eram tratadas praticamente como criminosas.

Eu tive que ralar muito para provar quem eu era. Não somente como jogadora, mas também como… Miraildes Maciel Mota. Mulher. Negra. Nordestina. Lésbica.

Formiga

Dilma me viu jogar com os meninos em Salvador e notou uma qualidade no meu futebol que nem eu mesma percebia: a coragem. Eu apanhava e continuava. Eu caía e me levantava. Eu perdia a primeira dividida, mas não desistia. Eu cansava, mas não parava de correr.

Mais ou menos nessa época, surgiu o apelido de Formiga, colocado por um torcedor. Ele falava que eu parecia uma “operária”, correndo por todos os lados, fazendo o trabalho de formiguinha.

Juro, no começo, eu odiaaaava esse apelido!! Queria até sair na porrada com que me chamasse assim hahaha… Mas fui me acostumando e gostando, até porque me trouxe muita sorte.

Formiga Brasil futebol feminino apelido Miralides
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Depois que Dilma me levou para um time feminino, tudo aconteceu bem rápido. Em pouco tempo, eu já estava entre as melhores jogadoras do país. Lembro como se fosse hoje da minha estreia pela seleção: 7 de junho de 1995, Brasil x Japão pela Copa do Mundo. Eu tinha 17 anos.

Estrear num Mundial poderia ser uma pressão imensa para qualquer garota que estivesse começando, mas, com toda franqueza, eu não me senti pressionada. Eu estava onde sempre quis estar, vestindo a camisa amarela, disputando uma Copa… Falando sério, era mais do que eu esperava. 

Na Bahia, eu só queria jogar bola. E mais nada. O que viesse na sequência era lucro.

Nós perdemos de 2 a 1 para o Japão e fomos eliminadas na fase de grupos. Mas guardo com muito carinho essa experiência do meu primeiro Mundial. Entrei menina, saí mulher. 

Foi também a fase em que eu descobri que as coisas não seriam fáceis para mim se realmente quisesse seguir uma carreira no futebol. Sendo quem eu sou, vinda de onde eu vim. 

O futebol feminino não tinha a mesma visibilidade que tem hoje. Para alguns antigos dirigentes, a estética era a melhor forma de chamar atenção para a modalidade. Não se importavam que a gente mal tivesse uniforme para jogar, obrigadas a esperar as camisas largas que sobravam do time masculino, nem direito de usar a academia que os homens usavam. Na cabeça deles, o importante era um rostinho bonito para atrair holofotes.

A seleção tinha várias meninas negras como eu. E os diretores insistiam que a gente tinha de deixar o cabelo crescer ou alisar. “Vocês precisam ser mais femininas”, eles diziam. Mas eu era justamente o contrário do padrão que esperavam de mim. 

Formiga Olimpiadas 1996 seleçao brasileira feminina
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Se não deixei meus irmãos mandarem em mim, não seria um dirigente que diria como eu devo me apresentar. Em protesto, fui lá e raspei o cabelo. 

Um deles veio me cobrar quando me viu de cabelo raspado: “Tá louca, é?”. Nem dei ideia. Outras meninas também rasparam, outras traçaram o cabelo, e eles tiveram que respeitar. Aquela foi a minha resposta. Acredito que atitudes simples podem ajudar a quebrar o racismo e abrir os olhos das pessoas. 

Teve uma vez que um torcedor passou o jogo inteiro me xingando na arquibancada. Palavras que prefiro nem repetir aqui, mas você já deve imaginar do que eu estou falando. Engoli a raiva e foquei na partida.

Quando acabou o jogo, esse mesmo torcedor veio atrás de mim e pediu uma foto comigo. Talvez ele pensou que eu ia encarar aquilo como mais uma provocação, mas disse que poderíamos tirar a foto, sem problemas. Na hora que ele me agradeceu, foi a minha vez de fazer um pedido:

“Coloca essa foto num quadro e pendura na sala da sua casa, para que você sempre se envergonhe do comportamento que teve hoje.”

Ele saiu do estádio vaiado por todos os torcedores que estavam em volta.

Nem sempre o preconceito será combatido dessa maneira, mas o que eu quero dizer é que não podemos permitir que os outros definam quem a gente é. Ou como devemos nos vestir e cortar nosso cabelo.

Formiga carta The Players Tribune
Sam Robles/CBF

Nesse ponto, defender o Brasil por tantos anos foi uma verdadeira escola. Quando a gente veste a camisa da Seleção, nós passamos a ser representantes em campo. Claro, representamos o povo brasileiro, mas, muitas vezes, também representamos pessoas que não estão acostumadas a ter representantes no futebol.

Antes, por exemplo, eu tinha receio em expor meus relacionamentos ou falar sobre minha orientação sexual. Com o tempo, entendi que não posso mais me omitir nem me esconder. Ser o que sou, sendo quem eu sou, pode inspirar outras que são como eu.

Mas uma coisa que o futebol não nos ensina é a entender o momento certo de encerrar certos ciclos. Como cantam naquela música que todo mundo conhece, “não aprendi dizer adeus”. É tão difícil que, depois de tentar uma vez, estou eu aqui de novo para minha segunda — e definitiva — despedida da seleção brasileira. Mas agora com uma certeza diferente de cinco anos atrás, que me deixa segura em afirmar que é o momento certo para encerrar esse ciclo.

Em 2016, quando também cheguei a me despedir da torcida em Manaus, eu estava mais cansada do que convicta em dizer adeus à seleção. Não era um cansaço físico, até porque, apesar dos 43 anos nas costas, eu ainda me sinto muito bem. Mas eu estava cansada de tanto cobrar avanços para o futebol feminino e não conseguir enxergar a evolução que eu esperava.

Formiga Olimpiada Toquio 2020 recorde
Sam Robles

Assim que recebi a ligação do professor Vadão, me bateu o sentimento de que minha missão ainda não estava completa. Por isso, aceitei o convite para voltar. Não poderia ser egoísta. Eu queria mostrar para as meninas que elas podem ser o que elas quiserem. 

Você pode ser mulher.

Você pode ser negra. 

Você pode ser nordestina. 

Você pode ser lésbica. 

Você pode jogar futebol. 

Você pode tudo que desejar. O mundo é seu!

Hoje enxergo que o futuro dessa missão já não depende mais de mim nem da nossa geração de pioneiras da Seleção. Temos competições nacionais organizadas, campeonatos de base, nunca formamos tantos talentos como agora… Por ver o futebol feminino no Brasil finalmente andando com as próprias pernas, acredito que chegou a hora de abrir espaço para outras meninas.

Hoje compreendo o que nossa geração representa para a modalidade. Não conquistamos a Copa nem o ouro olímpico, mas, independentemente disso, eu me sinto uma vencedora. Alcançamos o respeito que tanto reivindicamos ao longo das nossas carreiras. Vou levar para sempre na memória a Marta me abraçando quando fomos eliminadas na última Olimpíada, dizendo que gostaria de viver mais uma vez a emoção de lutar por uma medalha do meu lado. Ou a Cris chorando em rede nacional pela nossa derrota. Ela ficou fora dos Jogos e poderia ter se afastado de tudo, mas estava ali torcendo pela gente, nos dando força. Eu teria vários nomes para citar, mas, se um dia alguém quiser escrever sobre a história do futebol feminino no Brasil, Marta e Cris estarão em destaque na página principal.

Marta Formiga seleçao brasileira
Sam Robles

Hoje digo tranquilamente que não guardo mágoa dos meus irmãos. Eles vibraram com minhas conquistas e, depois que entenderam que esse era o meu caminho, torceram pelo meu sucesso no futebol. 

Hoje defendo novamente as cores do São Paulo, o primeiro time grande que me abriu as portas. Graças a este clube, pude chegar à Seleção e me tornar a atleta que mais vestiu a amarelinha. Ainda tenho lenha para queimar e quero conquistar outros títulos aqui.

Hoje também entendo melhor o ditado da minha mãe. Realmente, nada cai do céu, só chuva. Mas, se você tiver trabalhado duro e semeado debaixo do sol, vai brotar alguma coisa quando a chuva cair.

Chegou a hora de abrir espaço para outras meninas.

Formiga

Eu sinto que ajudei a plantar uma semente no futebol feminino. E que, em breve, as meninas desta e da próxima geração vão se beneficiar da colheita. Já é um orgulho enorme poder me despedir com essa certeza diferente, de que, por mais que a caminhada não seja fácil, nenhuma menina vai precisar sofrer o que eu sofri para jogar bola.

Repito o que eu disse em 2016, depois da Olimpíada no Brasil: nunca desistam dessas meninas, porque elas não vão desistir nunca. Assim como a minha geração nunca desistiu de lutar, de correr atrás do sonho, de buscar o melhor para o Brasil.

Formiga despedida Brasil futebol
Sam Robles

Não é por acaso que, desde que anunciei minha aposentadoria da Seleção, tenho recebido uma chuva de amor e carinho de todos os lados. As pessoas reconhecem que a Formiga sempre se esforçou para honrar as cores do nosso país. 

Trabalho de formiguinha, lembra?

Não aprendi dizer adeus, não sei se vou me acostumar a não ser mais a “Formiga da Seleção”. Só quero dizer às minhas companheiras que a semente que plantamos vai render frutos muito além dos gramados. Acreditem! A hora de colher está mais próxima do que vocês imaginam.

Hoje acordei com uma sensação diferente.

Mas, no fundo, é uma sensação boa.

Uma sensação de dever cumprido.

Obrigada, Brasil!

autografo Formiga jogadora futebol feminino

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