Você Também é Bem-Vindo Na Torcida de Senegal

Sam Robles/The Players' Tribune

Quando você terminar de ler esta história, eu tenho certeza que você será um torcedor de Senegal. Eu prometo. Mesmo que o Senegal não seja seu primeiro time nesta Copa do Mundo, ficaremos felizes em ser o segundo. Tranquilo, nós vamos te adotar.

Por que Senegal? Vamos começar com a Copa Africana de Nações. (O torneio favorito de todo técnico europeu.) É uma história engraçada, na verdade. Eu nunca disse isso antes, mas esta é a verdade…. No fim da prorrogação daquela final contra o Egito, havia tanta tensão no estádio em Camarões que me vieram uns flashbacks da época que eu tinha 11 anos. Para mim, assim que o apito soou e eu sabia que íamos para os pênaltis, não era 2022. 

Era 2002.

Quando você é um jogador de futebol, geralmente vive “o momento”. Não há tempo para ficar nervoso. Mas essa era uma chance de ouro para Senegal ganhar seu primeiro grande troféu. Sabíamos que o país inteiro estava nos observando, e eles tinham visto tanto desgosto ao longo dos anos. Lembra quando fomos eliminados no critério de desempate do Fair Play na Copa do Mundo de 2018? Então, perdemos a final da CAN no ano seguinte. Parecia que a história nunca amou o Senegal.

Senegal Copa do Mundo
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Mesmo antes da final de 2022, quando já tínhamos vencido nossa partida e estávamos todos no hotel vendo o Egito vencer a semifinal nos pênaltis, reparamos no goleiro deles e chegamos à uma conclusão: “Cara, temos que vencê-los em 90 minutos. Esse cara pega tudo”.

Hahahah. Sim, é verdade. Eu nunca contaria isso pra imprensa, mas estávamos todos dizendo: “Custe o que custar, não podemos ir para os pênaltis!!!!”.

Mesmo que o Senegal não seja seu primeiro time nesta Copa do Mundo, ficaremos felizes em ser o segundo.

Kalidou Koulibaly

Então, é claro que fomos para os pênaltis. E quando estávamos caminhando pra linha lateral para conversar com o treinador sobre quem bateria, não pude deixar de ter o mesmo flashback que milhões de senegaleses estavam tendo, assistindo na TV. No fundo da minha mente, eu estava repetindo o gol de ouro da Turquia nas quartas de final da Copa do Mundo de 2002. Na sequência, eu estava disputando os pênaltis contra Camarões na final do CAN de 2002. Olho para o nosso técnico, Aliou Cissé, que estava jogando naquele dia, e penso: Cara, até o chefe perdeu um pênalti contra Camarões em 2002! Talvez estejamos realmente amaldiçoados!

Mas então Aliou reuniu todos nós em um círculo, e ele fez um lindo discurso que mudou todo o clima. Não há muito que eu possa dizer sobre Aliou que lhe faça justiça, porque Aliou é o Senegal. Quando garotos, todos nós o vimos dar a vida pela camisa. Costumava colocar a cabeça onde os outros só ousavam botar a chuteira. Naquele momento difícil, antes dos pênaltis, ele nos disse para não ter medo. Ele nos disse para ir lá e ganhar pelo nosso país e pelas gerações de jogadores que se sacrificaram por aquele momento — desde o time de 2002 até nós.

Koulibaly Players Tribune
Sam Robles/The Players' Tribune

Poderíamos ser os únicos a reescrever a história. Tínhamos a caneta na mão.

Depois desse discurso, todos os nossos medos foram embora. Eu disse a ele que queria bater primeiro. Como capitão, sempre quero levar o fardo sobre meus ombros. Mas o incrível foi que Aliou olhou para todos e disse: “Ok, Kouli vai primeiro. Mas toda a pressão está em mim, não em você. Fui eu que escolhi. Eu vou responder por isso. Vocês vão lá e vençam”.

Então caminhei até a área. Me aproximei da bola. Não foi apenas um pênalti. Não foi apenas uma final. Foram 20 anos de história naquele chute.



Nos bairros de imigrantes na França, há realmente duas Copas do Mundo acontecendo ao mesmo tempo. Tem a Copa do Mundo na TV, e tem aquela que você joga na rua com seus amigos. Há a seleção do Senegal na TV — a seleção turca, a seleção tunisiana, a seleção argelina. E depois há o time senegalês do bairro, o time tunisiano do bairro, e assim por diante. Durante um verão normal, o bairro é uma bela mistura de culturas, línguas e amizade. Se você é o único sortudo o suficiente para ter um PlayStation, ele se torna o “Playstation da vizinhança”. Se você vai ao parque e todas as mães estão sentadas na grama tomando sorvete, você não vai abraçar apenas a mãe do seu amigo. Você abraça todas as mães.

Todo mundo é diferente, então todo mundo é igual — entende? Mas a cada quatro anos durante a Copa do Mundo? Não, não, não. Agora você está representando sua bandeira. Agora você sai para a rua e joga pelo país de seus pais ou de seus avós como se realmente tivesse sido convocado para o time principal. Todas as manhãs, você sai e joga o “jogo antes do jogo”.

E se acontecer de o Senegal jogar realmente contra a Turquia nas quartas de final, como no verão de 2002? Agora você joga o “jogo antes do jogo” como se fosse decidir a vida real. Mesmo se você estiver jogando 5 contra 5 na sua escola, é Turquia x Senegal. Ele literalmente decide o destino.

Lembro que jogamos esse jogo com meus amigos antes das quartas de final e, quando perdemos para os garotos turcos, você pensaria que alguém havia morrido. Estávamos discutindo uns com os outros pelos erros cometidos, estávamos segurando as lágrimas, desabamos no chão… Em nosso mundo, um bando de garotos de 11 anos em Saint-Dié-des-Vosges decepcionou toda a nação do Senegal.

Às vezes as pessoas me perguntam por que escolhi jogar pelo Senegal em vez da França.

Kalidou Koulibaly

Você pode pensar que estou exagerando, mas não. A Copa do Mundo é algo diferente. Meu amigo me lembrou outro dia que estávamos tão desesperados para o Senegal vencer as quartas de final que até tentamos fazer alguma “mágica” antes da partida. Recebemos uma grande bandeira do Senegal de alguém e a colocamos na mesa de oração e nos curvamos a Deus para implorar que ajudasse os Leões de Teranga a derrotar a Turquia.

Deus recebeu muitas dessas orações naquele dia, tenho certeza disso.

Claro, todo mundo sabe o que aconteceu. O Senegal perdeu com um gol de ouro e todos choramos. Mas eu sempre digo às pessoas que a coisa incrível sobre o meu bairro foi que depois que nossas lágrimas secaram, ficamos muito felizes por nossos amigos. Um dos meus melhores amigos se chamava Gokhan, e seus pais me alimentavam assim como meus pais o alimentavam. Na casa dele, eu comi kebab. Na minha, ele comeu mafé de poulet. Assim que Senegal foi eliminado, coloquei todo o meu coração na Turquia.

Essa é a beleza das crianças e de uma Copa do Mundo. Tudo gira em torno de bandeiras, cores e músicas, mas não de uma forma que dilacere as pessoas. Sonhamos com nossas pátrias de uma forma positiva. No meu bairro, estava ligado ao passado e à família de uma forma bonita. Às vezes, especialmente em uma família africana, pode ser a única vez que você verá seu pai ou seu tio chorar.

Às vezes as pessoas me perguntam por que escolhi jogar pelo Senegal em vez da França.

“Kouli, se você fosse pela França, poderia ter sido campeão mundial.”

Players Tribune Koulibaly Senegal
Sam Robles/The Players' Tribune

Talvez, mas acredito no destino. Sempre digo que sou fruto de duas culturas: a francesa e a senegalesa. Tenho muito orgulho de ser francês. Mas, para mim, representar o Senegal tem sido o plano de Deus. Há algo dentro de mim desde 2002, me puxando para esse destino. Lembro de quando Aliou assumiu a equipe em 2015, ele me ligou e disse: “Kouli, estamos entrando em um novo ciclo e precisamos de você. Precisamos de você aqui.”

Ele apostou num jogador de 24 anos que ainda era banco do Napoli. Ele acreditou em mim. Então eu tive que acreditar no Senegal. Quando liguei para os meus pais para contar minha decisão, foi a única vez na minha vida que os vi entusiasmados com o futebol. Normalmente, eles agem como se eu ainda estivesse jogando no pátio da escola. Eles estão muito familiarizados com as dificuldades da vida real para serem incomodados por um jogo. Mas quando liguei para meu pai no FaceTime e disse a ele que ia representar o Senegal, pude ver seus olhos brilharem.

Este é um homem que trabalhou sem parar como operário numa serraria — sete dias por semana durante cinco anos — para que pudesse dar a seus filhos uma vida melhor na França. É preciso muito para deixar The Boss animado. Mas naquele dia, seus olhos estavam brilhando. Eu representando meu país não é apenas uma partida de futebol. É sobre meu sangue, minha história e os sonhos dos meus pais.

Nunca esquecerei o dia em que me tornei capitão. Isso diz tudo sobre nossa equipe e o quão próximos estamos. Quando Aliou me escolheu para assumir a braçadeira de Cheikhou Kouyaté, fiquei com um pouco de dúvida no início. Cheikhou é uma pessoa incrível que conheço desde que joguei na Bélgica e fiquei preocupado com a reação dele. Lembro que estávamos no hotel e reuni um conselho dos jogadores mais velhos — Idrissa Gana Gueye, Sadio Mané, Édouard Mendy e Cheikhou. Eu disse a eles que só aceitaria a braçadeira se todos concordassem. Algumas coisas têm que permanecer privadas, mas o que posso dizer é que Cheikhou veio até mim naquela noite e disse: “Tenho muito respeito por você, porque você veio até mim como um homem. Eu quero que você seja o capitão.”

Se fosse qualquer outra pessoa além de Cheikhou, poderia ter sido uma situação tensa. Se você quiser descrever o Senegal e nossa mentalidade em uma palavra: Cheikhou. É isso. Até hoje, eu ainda o chamo de “Capitão”.

Para mim, é isso que significa ser senegalês. Você respeita sua história e os mais velhos. Não sei como fazem isso em outras seleções, mas sempre que há uma decisão difícil, reúno o conselho de Iddi, Sadio, Édouard e Cheikhou. Vivemos tudo juntos nestes últimos anos — as lágrimas boas e as lágrimas ruins.

É por isso que digo que a final da Copa Africana de Nações não foi um jogo. Foram 20 anos de história. Gerações de pessoas sonhavam com o Senegal levantando um troféu, e isso sempre terminava em decepção. Houve uma pressão imensa, sim. Mas eu senti que era o destino. Eu sabia disso nos primeiros cinco minutos da partida, depois que o pênalti de Sadio Mané foi defendido. Eu sei que isso soa estranho, mas não era o erro que importava. Foi a forma como Sadio reagiu.

Ele se deu por vencido. Ele imediatamente levantou os braços no ar para todos nós, e eu pude ver o fogo em seus olhos. A bola saiu para escanteio e ele gritou: “Vamos!! Vamos lá!!! Hoje vamos amassar eles!!”.

Quando levantamos o troféu, foi uma das maiores sensações da minha vida.

Kalidou Koulibaly

Sadio é pura espiritualidade. Seu carisma é algo especial. Quando ele olha pra você, parece que ele é capaz de ver dentro da sua alma, e ele entende o que você sente. Em termos esportivos, ele é um fora de série — um vencedor. Mas, acima de tudo, é um amigo, um irmão, no sentido mais autêntico da palavra.

Eu sabia que quando ele caminhasse, duas horas depois, para cobrar o pênalti final na disputa de pênaltis, ele iria marcar. Os grandes não falham duas vezes. Se você voltar e assistir ao vídeo antes de Sadio chutar a bola, verá como estou confiante. Há nove de nós parados no círculo central esperando que ele faça o gol. Você vê oito caras de joelhos, com as mãos estendidas, orando a Deus, e então lá estou eu, completamente imóvel, como se estivesse congelado.

Hahahah. Eu definitivamente não estava relaxado, mas eu sabia que ele ia marcar. Sem dúvida. Eu só estava esperando a bola bater no fundo da rede.

Ele acertou perfeitamente. Pooom. Fomos campeões da África. Todos saímos correndo. A sensação mais doce do mundo.

Lembro que fui chamado aos degraus do pódio para pegar o troféu do Sr. Infantino, e por causa das regras do COVID, meus companheiros não puderam subir. Era só eu, e ele queria que eu levantasse o troféu com as câmeras. Felizmente, desde a época em que joguei pelo Napoli, que realmente se tornou minha casa, falo italiano fluentemente. Eu disse ao Sr. Infantino em italiano: “Não, não, por favor, deixa eu levantar a taça com meus companheiros de equipe em campo”.

Senegal campeao Copa Africana de Naçoes
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Ele concordou e me deixou descer para fazer a grande celebração. Lembro também que, no início, tentei dar ao Aliou para levantar, porque foi ele quem iniciou essa jornada há 20 anos. Mas ele apenas disse: “Não, estou feliz em assistir. Vai você”.

Quando levantamos o troféu no ar, foi uma das maiores sensações da minha vida.

Quantas crianças estavam com a bandeira na mesa de oração, implorando para que aquele momento se tornasse realidade? Você pensa em coisas assim quando está no avião de volta pra casa, trazendo o troféu de volta ao Senegal. Mas quando você está na bolha, você não consegue imaginar quantas pessoas você tocou. Você vê as fotos e as mensagens nas redes sociais. Mas o que isso realmente significa para o país? Afinal, é apenas um jogo.

Quando desembarcamos em Dakar, vimos o que significava. Palavras não podem descrever. Pegamos um ônibus na rota do desfile do hotel até o palácio presidencial, onde deveríamos fazer uma festa. Bem, a festa atrasou um pouco! O trajeto geralmente leva 20 minutos. Mas havia tanta gente nas ruas que demorou quase sete horas. Demorou tanto, e eu estava tão exausto, que eu literalmente estava tirando uma soneca no ônibus, e continuei acordando a cada 20 minutos com os gritos das pessoas gritando nossos nomes.

Ehhh? Onde estou? Isso é um sonho?”

Se sua seleção for eliminada, o Senegal ficará feliz em recebê-lo em nossa torcida.

Kalidou Koulibaly

Eu acordava e olhava pela janela para milhares de pessoas, gritando nossos nomes e dançando e agitando a bandeira. Achei que estava alucinando.

“Não, Kouli, ainda estamos no ônibus.”

Você não pode imaginar como foi esse dia. Os ricos, os pobres, pessoas de diferentes lados políticos — todos estavam reunidos naquele dia. Foi um momento de pura alegria para milhões de senegaleses. Sim, alguns podem dizer, é “apenas a CAN”, mas eles não sabem de nada. Para mim, é ainda mais significativo do que ganhar uma Copa do Mundo com a França, a Alemanha ou o Brasil. Quando sua história é de desgosto, a emoção é muito diferente.

Como nos lembra Aliou, toda vez que vestimos o uniforme do Senegal, não estamos apenas jogando. Somos embaixadores de um país magnífico — um país que muitas pessoas não conhecem o suficiente. Nesta Copa do Mundo, queremos criar nosso próprio “momento 2002” para uma nova geração de crianças —, não apenas no Senegal, mas na diáspora senegalesa em todo o mundo.

Aquele time de 2002 jogou tão bem que, mesmo na derrota, venceu. No meu bairro, os garotos turcos, marroquinos e até franceses gritavam os nomes de Diop e Diatta e Diouf e N’Diaye e Cissé e Camara e Fadiga. Talvez você tivesse outro time favorito, mas eles eram tão legais que você não podia deixar de amá-los também.

Irmãos e irmãs, como prometi, há um lugar para vocês em nossa mesa. Se sua seleção for eliminada ou não estiver no Mundial, o Senegal ficará feliz em recebê-lo em nossa torcida.

Essa é a melhor parte de todo bom bairro, e é o que todos nós amamos na Copa do Mundo. Todos nós temos nossa bandeira, sim. Mas em cada coração há espaço para mais de um.

Autografo Koulibaly

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