Carta Para Uma Mãe Guerreira

Sam Robles/The Players’ Tribune

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Mãe, 

a esta altura do campeonato, você sabe tão bem como eu o que vivi nos últimos anos.

Mais do que qualquer outra pessoa, você me conhece de trás pra frente, por dentro e por fora, e acompanhou o que eu tive de passar para chegar até aqui, fazendo parte do grupo que disputa a Copa do Mundo.

E mais do que qualquer treinador, torcedor ou jornalista, mãe, você viu o quanto eu batalhei para realizar este sonho.

Então, mãe, do fundo do meu coração, eu quero te confessar uma coisa.

Tá preparada?

Aqui vai… 

É TUDO CULPA SUA, MÃE!

Calma, não precisa ficar preocupada. Não aconteceu nada grave, muito longe disso.

É que aqui, do outro lado do mundo, eu parei pra pensar em tudo o que nós vivemos juntas, mãe.

E é sobre isso que eu quero te falar agora, antes de encarar mais uma batalha na Copa.



Quando digo que “a culpa é toda sua”, a primeira coisa que me vem à cabeça é você contando pra todo mundo que, desde a sua barriga, eu já ficava chutando, meio que dizendo o que ia ser, né?

Falando sério, mãe, já na infância você percebeu o quanto eu gostava de jogar futebol. E eu nem me importava se só podia ser com os meninos. Eu me virava.

E sabe com quem eu aprendi isso?

Foi com você, dona Tatiane!

Na época em que meu pai não estava por perto, você foi o exemplo que guiou minha conduta — me ensinando como eu deveria me comportar.

Mãe, você não tinha dinheiro para cuidar daquela filharada toda, mas eu nunca te vi reclamar. Eu vi, sim, você acordar e batalhar.

Do meu jeito, era assim que eu fazia no campo de futebol. 

Eu não tinha chuteira, não tinha meião, ainda não sabia me posicionar taticamente, mas nada disso importava. O que valia era o quanto eu queria chegar lá. O quanto eu queria jogar futebol. 

Mãe, você não tinha dinheiro para cuidar daquela filharada toda, mas eu nunca te vi reclamar. Eu vi, sim, você acordar e batalhar.

Kerolin

E isso, minha mãe, eu aprendi com você, que trabalhava em casa de família como faxineira para nos sustentar, ganhando 800 reais. 

O dinheiro não dava conta do que a gente precisava como família. E o que dizer, então, do sonho de ser jogadora de futebol?

Mas você sabe, né, mãe, que nessa época eu só queria me divertir na escolinha, jogando leve, como se estivesse brincando. O que me espanta, olhando pra trás, é a minha intensidade, querendo jogar a qualquer custo.

Nem que pra isso eu tivesse que atravessar a rodovia Anhanguera para chegar na escolinha e jogar com os meninos.

Mano do céu, eu fazia aquilo sem saber o real perigo que estava correndo. Oito anos de idade e atravessando a Anhanguera… Sozinha!!

Kerolin jogadora criança
Cortesia de Kerolin

Chegando na escolinha, talvez você não saiba de todos os detalhes, mãe, mas todo mundo me tratava como mais um. Ninguém pegava leve comigo porque era uma garota.

Era como quando eu jogava lá na fazenda onde a gente morava, lembra? Os meus primos não estavam nem aí se eu era menina. Eles jogavam pra valer. Chutavam forte quando eu estava no gol, às vezes a bola pegava no meu rosto, em tudo quanto é lugar, pra falar a verdade.

Isso sem falar no zagueiro mais brabo que eu poderia enfrentar, o Zidane. Tinha nome de craque camisa 10, mas era na marcação que ele não deixava barato. É isso mesmo, mãe, a gente jogava bola com o pitbull do tio, o Zidane, que vinha babando de verdade pra tomar a bola dos meus pés, e eu tinha que pensar rápido e dar um corte seco. 

Ele vinha na marcação x1 e eu precisava me desvencilhar sem que ele me desse uma cabeçada (ou mesmo uma mordida). Ainda bem que sobrevivi inteira para te contar todas essas histórias, né, mãe?

Pois é, isso mesmo, Deus é bom o tempo todo!



Com muitos obstáculos no caminho, mãe, você não deixava a gente desistir, e mostrava para aonde seguir. É como se você dissesse pra gente, quando as dificuldades apareciam: “Sempre tem um jeito”.

Então, quando estava na escolinha e vi a chance de jogar contra a Seleção sub-17, mesmo com a sua desconfiança, fui em frente e coloquei todas as minhas fichas naquela oportunidade.

Hoje eu sei que você queria o melhor para mim, então, pensando no meu futuro, queria que eu fizesse um curso profissionalizante, queria que eu me dedicasse para uma coisa mais certa, com um caminho já determinado.

Mas é caminhando que se faz o caminho, né?

Sim, mãe, você com certeza se lembra que eu acordei três da manhã pra poder ir para Valinhos e encarar uma viagem de ônibus de sete horas até a Granja Comary para enfrentar a Seleção. Sou capaz de lembrar o sabor do café da manhã que tomamos no ônibus: um suco de laranja muito saboroso e um pão na chapa com presunto e queijo.

Mãe, acho que não te contei na época, mas o meu sentimento para aquele jogo era... faca na caveira.

Falando com muita sinceridade e humildade aqui, porque Deus sabe do meu coração, não fiquei surpresa por termos vencido a Seleção sub-17 porque eu joguei como se estivesse enfrentando o Zidane na zaga e os meninos no campinho de terra da fazenda.

A surpresa pra valer veio com o que aconteceu depois, né, mãe?

Na convocação seguinte, xablau!… Eu estava na lista.

Você se lembra do quanto chorou naquele dia?

A gente não falou disso, mas tenho certeza que você pensou em tudo o que tinha acontecido comigo até ali. Afinal de contas, alguns anos antes, eu quase perdi a perna, você se recorda?

Kerolin perna cicatriz jogadora
Sam Robles/The Players' Tribune

Foi quando eu tive osteomielite. Para mim — e penso que para os médicos também —, entender tudo o que aconteceu ainda é um mistério. Primeiro, a infecção, uma dor intensa. Depois, o tratamento à base de medicação. O custo alto dos remédios. Acordar chorando de madrugada. A ajuda do vô. E daí veio a cirurgia. 

Três meses no hospital, mãe, você tem noção?

Eu lembro que não sabia se ia suportar: a comida do hospital, aquele tempo todo parada, sem poder jogar...

E a recuperação foi longa demais pro meu gosto. No começo, eu nem mesmo tinha confiança de colocar o pé no chão sem apelar para a muleta.

Nesse tempo, mãe, quando o futuro estava incerto, me lembro que você, como uma rocha, permaneceu ao meu lado.

Por isso, eu não olho pra trás com amargura no coração. 

Na verdade, penso que, sem que a gente soubesse, mãe, Deus estava nos preparando para uma provação muito maior.

Kerolin Players Tribune
Sam Robles/The Players' Tribune

Mãe, até hoje me lembro o que eu estava fazendo quando recebi a notícia.

Era fevereiro de 2019. Eu estava na Granja Comary, concentrando com a Seleção principal para um torneio antes da Copa do Mundo. 

Foi então que o telefone tocou.

Do outro lado, a voz da minha treinadora no clube que me dizia:

— Olha, tenho uma notícia, mas não é muito boa. Você foi pega no doping.

— Mas o que é isso?

Então, ela me explicou que era uma coisa mais séria do que eu podia imaginar.

Sim, era verdade. E você sabe, mãe, que até hoje eu não sei como é que foi acontecer. 

O que era certo: eu não iria mais disputar a Copa do Mundo, justo quando parecia que eu estava vivendo o meu melhor momento, mãe.

Não era justo.

Pela primeira vez, eu estava conseguindo ajudar você e meus irmãos, então, parecia que esse sonho estava sendo arrancado de mim.

E foi aí que eu percebi o quanto uma frase, aparentemente aleatória do Cristiano Ronaldo, é cheia de verdade.

“Quando você ganha, muitas pessoas te ligam. Quando você perde, só a tua mãe te liga.”

Kerolin jogadora mae familia
Cortesia de Kerolin

Não, eu não tinha perdido um jogo. Era mais sério que isso. Teve um momento que até mesmo duvidei que fosse voltar a jogar. 

Descobri, então, que clubes rejeitam atletas acusados, ainda que injustamente, por doping. 

Descobri, também, que jornalistas e até mesmo alguns torcedores podem virar as costas para quem está na pior.

Descobri que, muito pior do que ser derrotado no jogo, é não acreditarem no que você tem a dizer.

E sabe mais o que eu descobri, mãe? Que nas horas mais difíceis, quando ninguém queria estar do meu lado, você estava lá, me ensinando uma lição valiosa.

Quando tudo parecia perdido, você me mostrava que era fundamental ser forte e resiliente. 

Mas você não me mostrava isso apenas com as palavras ou com suas poderosas orações. Não, mãe, você me guiava pelo exemplo, e isso num momento em que qualquer pessoa, com razão, perderia a cabeça.

Eu não gosto nem de lembrar. Mas quando estávamos vivendo o horror da pandemia, eu sem jogar, sem contrato e sem receber, você foi demitida do trabalho. 

Mãe, nós já passamos por muita coisa nessa vida, enfrentamos várias necessidades, mas nunca tínhamos vivido uma situação tão desesperadora como aquela. 

Houve momentos em que eu abria a geladeira e não tinha nada pra comer. Na dispensa, só tinha um resto de fubá. Nada de pão, arroz, feijão, farinha ou macarrão.

O único mantimento que sobrou era o fubá.

E, para piorar, a gente não sabia quando a pandemia ia acabar. Ou quando eu ia poder voltar a jogar.

Eram muitas incertezas, e é nessas horas que a gente vê quem é que está no controle de todas as coisas. E que, apesar dos nossos planos, que podem parecer infalíveis e certeiros, é a vontade de Deus que é perfeita. 

Não, mãe, eu não fui para a Copa do Mundo de 2019 e, ao seu lado, atravessei a maior barra que poderíamos suportar.

Mas, além da nossa família, Deus era por nós.

Kerolin Selecao Brasileira Copa do Mundo feminina
Sam Robles/The Players' Tribune

Sim, muita gente me deixou de lado, mas houve quem atendesse meus telefonemas, como o representante da Nike, que não cancelou o contrato comigo e ajudou a gente a se segurar as pontas nesse período.

Como minha punição de dois anos coincidiu com a pandemia, eu não parei de treinar. Queria estar preparada pra quando o futebol voltasse e eu fosse liberada para jogar. O problema agora era que eu estava sem clube.

Mãe, você tava lá quando o impensável aconteceu, quase um milagre.

A nova técnica da Seleção, a Pia, tinha me dado uma oportunidade.

Antes de eu assinar contrato com o Madrid.

E muito antes de eu ir jogar nos Estados Unidos.

Era Deus, mãe, mostrando que você estava certa de novo, e que a gente nunca deve perder a fé. Não porque sou merecedora ou porque sou melhor do que quem quer que seja, mas porque Ele cuida de mim o tempo todo.

E porque colocou um anjo para interceder por mim nos momentos mais difíceis.

Sim, eu estou falando da Marta, mãe.

A melhor jogadora que o Brasil viu em campo saiu em minha defesa quando fui acusada de doping — ela até mandou um vídeo falando em meu favor no julgamento.

E, anos depois, quando teve a chance, a Marta falou de mim para a treinadora da Seleção. Ela defendeu minha convocação. É verdade, ela sempre fez coisas impensáveis, ainda mais com a bola no pé, mas por essa bênção eu realmente não esperava.

Dá pra acreditar, mãe?



Aos 23 anos, mãe, eu sei que ainda tenho muito pela frente. E que o melhor ainda está por vir.

Mas seja qual for o meu destino daqui em diante, eu quero que você saiba que a nossa família estará em primeiro lugar, não importa a circunstância. 

Finalmente estou disputando uma Copa do Mundo e, pela primeira vez, tenho a chance de viver uma experiência que, até hoje, só tinha assistido pela televisão. 

Não, eu não pensava que pudesse chegar até aqui. Ainda mais por ter ficado fora da última Copa devido à punição.

Mas, depois de tudo o que eu passei...

Atravessando a Anhanguera sozinha para jogar futebol...

Encarando meninos que não aliviavam jogando com uma garota...

Driblando o Zidane, o verdadeiro pitbull da zaga...

Superando uma suspensão de dois anos e a falta de grana e comida durante a pandemia...

Ah, mãe, pensando bem, acho que tá na hora de desfrutarmos, não acha?

Kerolin namorada Brasil Copa do Mundo feminina
Sam Robles/The Players' Tribune

Quando a Seleção entra em campo, os olhos do mundo se voltam para nós, mas eu sinto que eles não nos veem como favoritas.

E quer saber, mãe?

Tá tudo bem.

O que eles não sabem é que, desta vez, não é apenas sobre a nossa Seleção ou sobre os nossos torcedores, os milhões de brasileiros e brasileiras que querem ver o Brasil vencer.

Assim como não é mais apenas sobre mim.

Não, mãe, desta vez é sobre o nosso grupo de mulheres, que tem na nossa treinadora, a melhor do mundo, um trabalho sólido, que não deve em nada para as equipes consideradas favoritas.

Desta vez, mãe, é sobre nós e sobre a Marta, que tanto fez para que eu pudesse estar aqui.

E é sobre você, também, mãe, que me preparou, me alimentou, cuidou de mim e me apoiou mesmo quando sugeriu que eu desistisse, querendo o melhor para a sua filha mais velha.

Poder representar o Brasil numa Copa mostra que valeu a pena ter insistido. Mais do que uma vencedora, eu quero que você se orgulhe da mulher corajosa que eu me tornei — algo que só foi possível porque você, mãe guerreira, esteve lá, sendo mãe, amiga, minha maior torcedora e a grande culpada por eu ter chegado até aqui. 

É sobre isso, mãe.

Amo você.

Autografo Kerolin

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