Cicatrizes

Felipe Vianna/The Players' Tribune

Eu carrego duas cicatrizes terríveis.

Separadas pelo tempo, uma no passado, coisa de moleque, e outra no presente, já adulto, ambas foram causadas por um erro meu. 

Elas me cortam de jeitos e em lugares diferentes. Uma doeu, me jogou na cama, quase me matou, mas sarou: ficaram apenas essas marcas feias nos meus pés. Ferida minha, particular. A outra ainda arde no meu espírito de uma maneira tão profunda que eu espero que seque um dia. Porque eu feri outras pessoas. E não foi pouco. 

De nenhuma delas dá pra esquecer. Uma me remete à dor física. A outra, a uma dor que eu ainda não consigo explicar direito.

A primeira cicatriz eu consegui aos 5 anos. Eu e dois amigos inventamos de construir uma chaminé no quintal de casa. Picotamos papelão, empilhamos uns tijolos em volta, riscamos o fósforo, jogamos lá dentro e… nada.

Outro fósforo.

Nada.

Ué, cadê a fumacinha da chaminé? 

Sem fogo, sem fumaça.

Eu ainda não entendo como crianças tão pequenas podiam saber disso, mas tinha um frasco de álcool numa prateleira e nós tacamos também. A explosão foi instantânea. Eu estava descalço. Tentei correr, o fogo veio atrás de mim, envolveu meus pés e eu caí. Uma dor avassaladora. Do chão eu via os meus amigos. Um tinha a calça em chamas. O outro, o rosto. Essas imagens ainda aparecem nos meus sonhos.

Quando acordei no hospital, estávamos os três deitados em macas, uma ao lado da outra, e os nossos pais com cara de desespero. Nós três tínhamos ataduras enormes pelo corpo. Eu ficaria um ano com as duas pernas enfaixadas, dos pés até o joelho.

Sem poder andar, eu me movia de skate. Deitava nele de barriga pra baixo e remava em casa, no mercado, na escola. Dava pra me virar. Mas seriam mais dois anos inteiros para voltar a fazer o que eu mais gostava na vida: chutar uma bola.

Eu já estava numa escolinha de futebol e, por milagre, o acidente não deixou nenhuma sequela que me impedisse de continuar jogando. O trauma e as marcas, porém, ficaram. Passar diante de uma churrasqueira, ou de um fogão aceso, não é algo simples pra mim. E os meus pés são uma coisa bem desagradável de se ver. Por muito tempo eu tive vergonha deles. Quando você é adolescente, joga futebol, aquele monte de moleque, ninguém perdoa ninguém. 

“Aí, pé de galinha! Aí, pé de veio!”

Então eu tentava esconder. Já chegava de meião pra treinar e, depois, no fim do dia no vestiário, era o último a descalçar as chuteiras, o último a tomar banho, o último a ir embora. Eu me sentia humilhado. Mas, tirando certa insensibilidade na ponta dos dedos, meus pés funcionavam perfeitamente.

Pes Danilo Avelar
Felipe Vianna/The Players' Tribune

Só a minha cabeça, com aquela zoação toda, é que não. A vergonha era muito grande. É triste saber que, anos depois, eu fui incapaz de aprender com a minha humilhação e a minha vergonha, de me colocar no lugar do outro, sentir a sua dor, e cometi um ato tão desprezível.

Estou falando da minha outra cicatriz, a recente, que fez sangrar fora de mim. Em 2021, jogando videogame online, eu escrevi no chat uma ofensa racista. 

Não tem um dia que eu não me envergonhe e não me arrependa. 

Pouco importa se aquilo não condizia e não condiz comigo, com o que meus pais me ensinaram, com os meus valores. O fato é que eu fiz. E foi grave. Mas reconhecer o erro nunca me pareceu suficiente. Eu precisava tentar repará-lo de alguma maneira.

No turbilhão que se seguiu, eu só pensava em entender por que eu fui capaz de fazer algo assim. Compreendendo isso talvez eu tivesse uma chance de me mudar, pra não repetir. Então passei não só a me engajar em projetos que dão voz e oportunidades a pessoas negras, como também contratei uma professora, a escritora e ativista antirracista Winnie Bueno, e venho estudando com ela. Não posso esperar que me perdoem. Mas posso esperar que meu processo de aprendizado contribua para uma transformação social abrangente e efetiva.

Sabe, eu sempre tive consciência de que sou um jogador nota 7. O mediano persistente. Tudo vinha dando certo pra mim desse jeito, porque o futebol não é feito só de foras-de-série, gênios e extraterrestres. Tem espaço pros carregadores de piano também. E foi assim que eu construí uma carreira até que bem construída.

Desde o futsal em Paranavaí, a minha cidade, até chegar no Corinthians, o meu time do coração, tudo aconteceu muito rápido. Ao longo do caminho, jogando também fora do Brasil, me deparei com situações de intolerância e preconceito. Os sinais sempre estiveram ali.

Então por que eu não prestei atenção neles?

Por que no dia em que um colega negro que jogava comigo na Ucrânia foi xingado na rua, do meu lado, eu não soube o que fazer? 

Por que outro dia, na França, eu achei legal que o gerente do banco fosse um homem negro e não me perguntei por que no Brasil eu nunca tinha visto um gerente de banco negro?

Só hoje, depois de estudar a fundo a nossa história e permitir que essas perguntas latejem dentro de mim, eu consigo responder: porque o racismo estrutura a sociedade brasileira. Somos um país construído nessas bases cruéis. E a minha condição de homem branco me deu o privilégio de não sentir a dor, não estranhar, nem me preocupar com tal sistema de opressão e dominação. Esse privilégio deveria ser o nosso maior motivo de vergonha.

Dois anos atrás, quando tudo aconteceu, pessoas me ofereceram consultoria para “limpar a minha imagem”. Uma postagenzinha aqui, uma caridade ali e tudo se resolveria. Eu disse “Não!”.

Que cada um julgasse a minha imagem como bem entendesse, eu não tinha controle sobre isso. Da parte que me cabia, eu queria era limpar dentro de mim, para poder crescer intelectual e emocionalmente.

Se no campo tinha funcionado bem, fora dele eu não podia mais ser só um mediano nota 7. Por isso eu resolvi ler, me educar, adquirir a instrução e a empatia que me faltaram. Ao mesmo tempo, venho fazendo um balanço da minha carreira tentando considerar tudo isso, a questão racial, o preconceito, a intolerância, pra ver se desse mergulho eu consigo emergir outro. 

Danilo Avelar Players Tribune
Felipe Vianna/The Players' Tribune

Pra começar, se eu faço parte do 1% de garotos brasileiros que conseguem transformar seu sonho de ser jogador profissional em realidade, isso se deve em boa parte a um homem negro: César Sampaio, ex-jogador do Palmeiras e da Seleção. Foi ele que me viu numa Copa São Paulo jogando pelo Paraná Clube e resolveu apostar.

O Sampaio me levou pra fazer testes no Palmeiras e no São Paulo. Fui reprovado. Mas ele não desistiu de mim: “Danilo, vamos pro interior, pro Rio Claro. Lá você se profissionaliza e começa a vida com mais tranquilidade”.

Dito e feito.

Com 19 anos, eu ganhava 800 reais por mês e disputava o Campeonato Paulista pelo Rio Claro. O time faz uma campanha ruim, é rebaixado. Só que eu me destaco e o Sampaio consegue pra mim uma semana de testes na Ucrânia. O time era o Karpaty Lviv.

Foi a primeira vez que saí do Brasil. Da Ucrânia eu só sabia que fazia muito frio. Quando cheguei, logo aprendi uma palavra nova: xenofobia. Eles realmente não gostavam de jogador estrangeiro lá. Acham que a gente rouba o lugar dos locais no time. 

Vivi uma semana de terror.

Nos treinos, ninguém tocava a bola pra mim. Quando eu conseguia pegar, vinha carrinho, pisão, cotovelada… Tudo muito violento. O treinador mal me dirigia a palavra. E eu só podia entrar no vestiário depois que os jogadores ucranianos saíssem.

Eu lembrava da minha adolescência, da zoação dos moleques por causa dos meus pés, e me calava. Que escolha eu tinha? Com o Rio Claro rebaixado e dispensando jogadores, não havia mais espaço pra mim lá nem proposta de time brasileiro. A minha única opção era aguentar a humilhação na Ucrânia e acreditar que aquilo ia passar.

Fui aprovado no teste e me mudei para Lviv. Sozinho. Eu e uma malinha pequena, com as minhas poucas roupas e pertences. O Karpaty ia disputar as eliminatórias da Europa League e precisava de elenco. Só que o lateral-esquerdo se machucou e o treinador me perguntou se eu, que era volante, queria tentar jogar por ali. Foi a primeira vez que ele me perguntou alguma coisa.

Claro que eu quero!!

Virei titular, avançamos na competição e, na fase de grupos, caímos no grupo da morte, com PSG, Borussia Dortmund e Sevilla. Eu até comemorei o sorteio. Dois meses antes eu estava sendo rebaixado com o Rio Claro no Paulistão, pô!

Aí vem a pausa de fim de ano, o inverno ucraniano, eu volto pro Brasil em dezembro. Fico por aqui e me reapresento ao Karpaty em janeiro para a pré-temporada. No primeiro dia, eu estava jantando, meu telefone toca. Era o César Sampaio: 

— Danilo, arruma tuas coisas que amanhã cedo você viaja pra Alemanha.

— Como assim?! Fazer o que na Alemanha?

— Você vai jogar no Schalke 04.

Eu corro na internet pra dar uma olhada no time do Schalke…

Neuer.

Metzelder.

Draxler.

Raúl.

Huntelaar.

Farfán.

os caras. Meu Deus!

Na manhã seguinte, uma quarta-feira, cheguei em Gelsenkirchen e fui direto pro centro de treinamento. De cara notei a diferença de tratamento e, pela primeira vez na Europa, eu me senti bem. O técnico me deu as boas vindas e quis saber se eu estava treinando, como eu estava fisicamente. Eu só tinha feito um dia de treino depois de dois meses de férias, mas menti: 

— Estou bem, professor. Treinando forte como sempre.

— Ok. Se a sua documentação chegar, você estreia no sábado contra o Borussia.

Meu coração quase saiu pela boca. O Sampaio no hotel cuidando da papelada e pela única vez na vida eu rezei pra não jogar, pros documentos não ficarem prontos a tempo. Eu não estava preparado mentalmente praquilo. O nível era muito alto pra mim.

Quem sabe com um pouco mais de tempo… Mas, assim, na fogueira… Certeza que eu ia me queimar.

Eu estava no local certo na hora errada. Mas deu “certo”.

A documentação não saiu e eu tive mais tempo pra pôr as ideias no lugar. No decorrer do ano, fiz bons jogos e estava no grupo que foi campeão da Copa da Alemanha e chegou à semifinal da Champions, contra o Manchester United. 

Terminou o meu empréstimo e eu voltei pra Ucrânia, mas com algo mudando dentro de mim. Eu estava disposto a encarar as coisas ruins de outro jeito. Eu tinha chegado a uma semifinal de Champions, na Alemanha acreditaram no meu potencial sem se importarem de onde eu vinha. Então, eu não ia mais tolerar ser menosprezado, diminuído, pelo fato de ser estrangeiro. Como eu disse, os sinais sempre estiverem ali. Eu que não prestei atenção.

Na volta pra Ucrânia, as coisas pioraram. Porque, além de ser um estrangeiro, eu agora era um estrangeiro que tinha jogado na Alemanha, onde o futebol é muito melhor. Daí o boicote dos ucranianos aumentou.

O treinador pedia pro capitão reunir o time pra passar alguma instrução e eu não era chamado.

Ué, cadê todo mundo?

Quando descobria onde eles estavam, eu entrava atrasado na sala e tomava esporro: “Só podia ser brasileiro mesmo”, eles diziam.

Eu morava no mesmo prédio que o lateral-direito, que era ucraniano. Toda manhã a gente descia junto no elevador, eu dava bom dia, o cara não respondia. Íamos pro mesmo lugar, pro CT, e ele não oferecia carona. Como eu não tinha carro, ia de ônibus, me sentindo péssimo, invisível, menor.

Quer saber? Chega. Vou acabar com isso.

Na reunião seguinte que eles não me chamaram, eu entrei no vestiário chutando a porta, xingando e metendo dedo na cara: “Por que vocês fazem isso? Eu não vim aqui prejudicar ninguém. Tô aqui pra trabalhar como vocês. Que diferença faz se eu venho de outro país? Eu também quero ajudar o time a vencer e tô dando a minha contribuição pra isso”.

Pedia pro tradutor traduzir e ele falava duas, três palavras. “Porra, mano, traduz tudo, por favor!”. Ele não traduzia, o que aumentava a minha sensação de impotência.

Minha única opção era aguentar a humilhação na Ucrânia e acreditar que aquilo ia passar.

Danilo Avelar

No dia seguinte, o presidente do clube me chamou pra conversar.

Cena de filme de máfia. Uma mesa gigante, ele sentado numa ponta, dois caras armados na porta.

Eu repeti o que tinha dito no vestiário e expliquei como tudo aquilo me fazia mal, acabava comigo. O que eu tinha feito de errado pra ser tão desrespeitado, tão humilhado?

Hoje, depois da minha segunda cicatriz, eu sei as respostas. O que eu fiz de “errado” foi existir numa condição que eles consideram inferior, a de estrangeiro. E eu não estou aqui querendo fazer algum tipo de comparação ou tentando me justificar. Estou dizendo, mais uma vez, que os sinais estavam lá, eram evidentes, dolorosos, mas não me impediram de errar e causar dor a outras pessoas.

Só fui capaz de percebê-los depois de eu mesmo ter uma atitude cruel. É claro que não precisava ter chegado a esse ponto. Mas infelizmente chegou. Agora eu lido com isso e batalho por mudança.

Apesar de ser um cara durão, o presidente do Karpaty entendeu o meu lado e me liberou para ir jogar na Itália por eu ter sido sincero com ele. Eu ficaria mais cinco anos na Europa, defendendo Cagliari, Torino e o Amiens, da França. Foi o período em que, enfim, desfrutei do futebol.

Danilo Avelar retrato
Felipe Vianna/The Players' Tribune

Mas chegou uma hora que eu comecei a sentir vontade de mostrar meu valor no Brasil. De ter meu pai torcendo por mim num estádio e não por sites gringos num fuso horário maluco. Então eu vim emprestado pro Corinthians.

Foi difícil para o Torino me liberar, porque eles queriam me vender. Aí eu propus um acordo pra eles: no final da primeira temporada, se o Corinthians não me comprasse, eu voltaria ganhando um salário mínimo de 1.500 euros até o fim do meu contrato. Eles toparam na hora.

Lembro até hoje das palavras do Andrés Sanchez quando eu cheguei em São Paulo para assinar com o clube. “Se prepara, meu filho. O Corinthians é um foguete, tanto pra cima como pra baixo. Pode te levar pro topo ou pro buraco, não para no meio”, ele me disse. Mas eu tinha certeza de que eu iria bem no Corinthians. O time do coração da família inteira, cê tá maluco… Pai, mãe, dez tios, 28 primos, irmãos, sobrinhos, amigos, todo mundo corintiano.

Sofri um pouco pra me adaptar até marcar aquele gol contra o Palmeiras no Allianz Parque. Depois do jogo, o Cássio fechou a roda no vestiário e dedicou a mim a vitória: “Você estava sendo muito criticado, mas continuou trabalhando e mereceu esse gol. Saiba que a sua vida agora vai mudar”. 

Cara, ouvir isso de um ídolo que representa tanto no clube me fez chorar na frente de todo mundo. E ele estava certo. Minha vida mudou absurdamente. Pra melhor, claro.

Me tornei um cara mais confiante, mais tranquilo, me sentia querido pela torcida, pelos colegas. O Corinthians me comprou em definitivo. Os perrengues da infância e da Europa pareciam cada vez menores e distantes. Depois ainda marquei o gol na final contra o São Paulo e, nesse dia, eu tive o choro mais emocionado da vida.

Se eu ainda pudesse sonhar com mais alguma coisa no futebol, que fosse que aquele momento durasse até o último dos meus dias.

Mas ele acabou.

De uma forma idiota e abrupta, o mesmo foguete que tinha me levado ao topo me jogou com tudo num buraco sem fim.

Numa madrugada que parecia outra qualquer de jogo online, eu machuquei pessoas que são machucadas há gerações. Machuquei também a minha família, o meu clube, a minha torcida. Na hora que meu telefone tocou, o dia ainda nem tinha amanhecido, e do outro lado da linha um cara que eu não conhecia disse: “Sou o gestor de crises do Corinthians, só apareço em casos extremos”, eu entendi que a pancada seria forte. E está sendo ainda. Ninguém tinha infringido uma lei tão grave assim num clube de massa.

Se eu lamento? Claro que sim. Eu gostaria de ter sido desde sempre esse cara que eu sou hoje, mais estudado e conhecedor da realidade brasileira. Gostaria de não ter precisado aprender na base da pancada. 

Se o clube poderia ter conduzido melhor a situação? Sem dúvida. Quando cheguei na sala da presidência para conversar com a diretoria, já tinha um batalhão de advogados, assessores, dirigentes e eu ali, sozinho. Fiquei ainda mais chateado ao perceber que a preocupação de todas as pessoas dentro da sala era somente dar uma resposta rápida à imprensa. Nenhuma delas se preocupou em saber como eu estava ou em propor uma reflexão maior sobre o racismo.

Nesse momento, eu ainda tinha a chance de “escapar” daquele turbilhão. Era só aceitar o conselho que muita gente me deu: “Pô, Danilo, inventa uma história qualquer. No print da ofensa não tem seu rosto, nome, sobrenome, CPF, nada. Só um nickname. Bota a culpa em outra pessoa e toca o barco”.

Na hora que meu telefone tocou e do outro lado da linha um cara que eu não conhecia disse: “Sou o gestor de crises do Corinthians, só apareço em casos extremos”, eu entendi que a pancada seria forte.

Danilo Avelar

Entretanto, nesse momento de desamparo durante a reunião, senti no coração que eu realmente tinha de assumir a bronca. Comuniquei minha decisão à diretoria, que me instruiu a publicar uma nota fria, sem a aprovação da minha assessoria, me retratando. Confesso que, hoje, eu teria feito diferente. Não tive tempo para pensar e apenas segui as ordens do clube em busca de uma satisfação imediata à opinião pública.

De qualquer forma, o principal é que eu assumi para mim mesmo que havia falhado. Continuei me recuperando de uma lesão no clube, mas nunca mais vesti a camisa do Corinthians. Também assumo a consequência do meu erro e, por isso, não me sinto injustiçado. 

Hoje, no América Mineiro, sempre que treinamos no CT do Corinthians antes dos jogos contra times de São Paulo, eu olho para o mural que fica nos fundos com os principais títulos do clube, vejo uma fotona minha do lado do Cássio comemorando o tricampeonato paulista e já me basta. É a lembrança de que também fiquei marcado na história do clube por ter chegado ao topo.

Agora, depois de tudo que aconteceu, o que eu posso fazer é tocar a bola pra frente de um jeito diferente, sempre com um olho no retrovisor. 

Danilo Avelar filho Players Tribune
Felipe Vianna/The Players' Tribune

Procurar crescer como atleta, como ser humano e, principalmente, como cidadão, carregando comigo e espalhando a conduta antirracista. Porque não adianta eu ver um colega fazendo piada racista, usar uma palavra depreciativa, e me calar.

Aconteceu dias atrás. Chamei o cara de lado e conversei. Ele falou sobre o jogador negro que ele tinha ofendido sem achar que era ofensa: “Ah, tá tudo bem, ele mesmo brinca com isso”.

Não, meu chapa, não está tudo bem.

Será que ele brinca pra não perder a sua amizade? Ou por que não está a fim de discutir um assunto com o qual você não sabe lidar? Você sabia que quando a ofensa vem assim, de forma “leve”, em tom de brincadeira, pode ser até pior, porque mascara o racismo?

Então eu vou passando um pouco de informação aqui e ali, no cotidiano, no torneio que eu promovo em Paranavaí há seis anos com 1.200 crianças, falando de escravidão, privilégio branco, falta de representatividade, apagamento da história e de como essa tragédia absurda molda a nossa sociedade até hoje, vitimando só um lado: o das pessoas negras. 

A Winnie Bueno tem sido fundamental e eu queria deixar um agradecimento pra ela. Acho que eu progredi, mas tenho muito que aprender ainda.

Um dos pontos que a gente debateu bastante é o seguinte: como eu faço pro meu filho crescer uma pessoa diferente do que eu fui? Querendo ou não, ele também é fruto do privilégio. A nossa vida não condiz com a realidade brasileira, com o dia a dia da maior parte da população. A Winnie me indicou livros infantis pra gente ler juntos, desenhos animados pra assistir. Eu quero que o meu menino cresça respeitando e valorizando as diferenças. E que faça tudo o que estiver ao alcance dele pra gente ser um país menos desigual e injusto.

O caminho é longo, mas eu tenho fé que nós vamos conseguir. Prometo continuar vigilante. E as minhas cicatrizes jamais me deixarão esquecer.

Autografo Danilo Avelar

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