Uma história maluca

Michal Cizek / AFP via Getty Images

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Estamos num café em Braga, comendo panquecas com iogurte. 

Eu e um amigo. O ano é 2018. Eu jogo pelo Porto, mas neste dia estou tranquilo, de folga, na minha cidade natal no norte de Portugal. É primavera, o sol está brilhando. Na hora que eu vou pegar outro pedaço de panqueca, meu amigo se debruça em cima da mesa e diz: “Olha………… alguém vai ligar.” 

E eu digo: “Alguém?”

"Você vai surtar.”

“O que? Quem???”

"Mourinho.”

“Cala a boca.”

Sabe, meu amigo estava trabalhando com meu empresário naquela época. Eu tinha 19 anos e tinha acabado de integrar o time profissional do Porto. Até então nós tínhamos conversado com diretores de outros clubes, mas nunca diretamente com um técnico. Um pouco depois, o telefone dele toca, e ele passa pra mim. Eu pego e corro para o outro lado da rua. Quando eu atendo, é realmente ele. José Mourinho. 

E ele está dizendo tudo o que eu quero ouvir. Eu sou talentoso. Eu sou forte. “Eu só precisava de um teste,” ele diz. Ele estava me analisando quando o Porto jogou contra o Liverpool em Anfield algumas semanas antes, porque eu estava marcando o Sadio Mané.

“Você parou o melhor ponta do mundo. Agora vai vir jogar pra mim.”

Eu desligo e vejo que meu amigo está me olhando pela janela do café, tipo COMO FOI? Eu estico minha mãe e subo ela em direção ao céu, como um avião saindo da pista. 

Vamos decolar, irmão.

Vamos para o Manchester United. 

Diogo Dalot | A Crazy Story | Manchester United | Portugal | World Cup 2026 | The Players’ Tribune
Ash Donelon/Manchester United via Getty Images

Alguns dias depois, ouço que preciso fazer uma cirurgia. 

Eu tive um problema com meu joelho direito durante o treino e, quando fiz a ressonância magnética, o médico disse que eu ficaria fora por cinco meses. Menisco lateral. Minha primeira lesão séria. Inacreditável. Assim que eu entro no carro para ir para casa, meu agente me liga.

Eu digo: “Vou ter que operar. Acabou.”

Silêncio.

“Alô?”

Ele diz: “Eu não sei como dizer isso, mas está tudo pronto. A papelada está pronta. O diretor deles está indo para a sua casa. Você só tem que assinar.”

“E agora? Eles vão me contratar?”

“Eu não sei.”

Você conhece Paranoid, do Post Malone? Eu sei de cor cada palavra daquela música. Quando eu dirijo de volta para casa, em Braga, coloco no repeat. Te juro, foi o pior caminho da minha vida. Tenho plena certeza de que o acordo vai ser cancelado. Quando chego em casa, mando mensagem para o Mourinho sobre a cirurgia. Ficamos esperando pela resposta dele, eu, meu pai, minha mãe e meu agente. Só sentados lá, em silêncio. Meu pai fica perguntando: “Alguma novidade?”

“Não.”

Estou suando. Estou tremendo.

Finalmente………


PING! 

Todo mundo olha para mim. Eu olho para o meu celular.

De: José Mourinho

“Diogo, eu não me importo com a lesão. Você vai ficar fora por cinco meses. Eu vou te contratar pelos próximos 10 anos.” 

Você não faz ideia de quanta lágrima saiu do meu corpo. Minha mãe chorava. Meu pai desabou de um jeito que eu nunca tinha visto antes. Até meu empresário ficou com os olhos cheios d’água. Dez segundos antes, eu estava vivendo o pior dia da minha vida.

E então o Mourinho viu algo em mim que nem eu mesmo enxergava. 

Diogo Dalot | A Crazy Story | Manchester United | Portugal | World Cup 2026 | The Players’ Tribune
John Peters/Manchester United via Getty Images

Alguns meses depois, a gente ia jogar contra o Young Boys, fora de casa, pela Champions League. Eu tinha jogado algumas partidas com o sub-23 e treinado com o time profissional, tentando recuperar o ritmo, mas não sabia quando teria minha primeira chance. Na véspera do jogo, o Mourinho chega em mim.

[Você precisa imaginar a voz dele aqui.]

Ele diz: “Meus auxiliares estão me dizendo que você não está pronto.”

Eu respondo: “Mas por quê? Estou treinando super bem. Mister, eu estou pronto!”

Ele diz: “Eu sei. É por isso que você vai ser titular. Mas ninguém na comissão técnica acha que você tem condições de jogo.”

E cara, eu fico p***. Olho feio para a comissão técnica, e é engraçado porque Michael Carrick era um dos auxiliares naquela época. Eu começo a me hypar sozinho. Eu até mando mensagem para o meu pai, tipo: “O que? Eles acham que eu não estou pronto? Quem são eles?! Eles não me conhecem!!”

No dia seguinte, eu faço o jogo da minha vida. Vencemos por 3 a 0. Depois da partida, o Mourinho aperta a minha mão, me dá uma piscada e sussurra no meu ouvido.

“Eu sabia que você estava pronto.”

Você acha que a comissão técnica falou alguma coisa?

Meu palpite é… nem uma palavra. 

Diogo Dalot | A Crazy Story | Manchester United | Portugal | World Cup 2026 | The Players’ Tribune
Matthew Peters/Manchester United via Getty Images

Três meses depois, em dezembro de 2018, Mourinho foi demitido. Eu fiquei muito triste, porque ele acreditava demais em mim e nós já tínhamos criado uma ligação emocional. Logo depois, tínhamos um novo técnico. No verão seguinte, tínhamos um novo lateral-direito. 

Na temporada seguinte, acho que eu joguei 10 jogos somando todas as competições.  

Dez.

“Dalot foi cortado por lesão.”

"Dalot começa no banco hoje.”

"Dalot não foi relacionado.”

Eu tinha vergonha de ficar sentado na arquibancada. A gente assistia ao jogo no camarote da diretoria, e os torcedores ao nosso lado me perguntavam: “Por que você não está jogando?”.

Eu nem sabia o que dizer. Eu não estava machucado. Só não era escolhido. Fiquei tão envergonhado que comecei a descer para o vestiário para assistir ao jogo sozinho pela TV. Minha mãe se mudou comigo de Portugal, mas quando eu chegava em casa, mal conseguia dizer “Oi”. Eu descia as escadas, ligava o PlayStation, colocava Paranoid no repeat e ficava pensando e pensando.  

Eu jogava no Porto. Eu era uma das grandes promessas. Agora eu não fico nem no banco. Estou desperdiçando meus anos. 

Estou perdendo tempo. 

O que eu estou fazendo aqui?

Diogo Dalot | A Crazy Story | Manchester United | Portugal | World Cup 2026 | The Players’ Tribune
Michael Regan/Getty Images

Às vezes o técnico só quer um perfil diferente de jogador, mas eu achava que a culpa era toda minha. Já que não estou jogando, preciso fazer mais. Comecei a treinar feito maluco.

Já na pré-temporada, eu checava as estatísticas de corrida depois de cada treino para garantir que eu era o mais rápido. Na academia, alguns dos recordes ainda são meus. Sabe quando você está num avião sem Wi-Fi e fica só rolando a galeria de fotos do seu celular? Eu ainda tenho uns 200 vídeos meus treinando. Eu ficava assistindo em casa, porque não tinha lances de jogo para me motivar. Depois de um mês, meu corpo simplesmente quebrou. 

Lesão no quadril, seis semanas fora. 

E sim, eu sei o que você tá pensando. 

“Diogo, por que você não podia relaxar um pouco?".

Honestamente, eu queria conseguir. Mas você precisa entender como eu fui criado. 

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Cortesia da Família Dalot

Eu venho de uma família que vira cada pedra para dar o seu melhor. Minha irmã é musicista profissional. Minha mãe é professora. Meu pai é advogado. Ele é educado e civilizado, até começar o jogo do Porto. A mãe dele não deixou ele ser jogador de futebol, então ele transferiu o sonho dele para mim. Aos sábados ele me acordava: “Diogo! Diogo! Dia de jogo!”. Um pouco depois, lá estou eu sentado na mesa, olhando para um prato de ovos mexidos, um copo de suco de laranja espremido na hora e uma bacia gigante de macarrão. Tinha metade do meu peso. Olho para o relógio.

07.58

“Carboidratos para o jogo. Come lá, filho.”

Eu tinha seis anos. 

O sonho dele era me ver jogar pelo Porto, mas uns dois anos depois, fiz um teste no Benfica. A gente treinou ao lado do Estádio da Luz e, quando apareci de camisa vermelha, meu pai parecia fisicamente doente. Eles me queriam, mas o Porto ligou e disse: "Vem para cá.”

Meu sonho tinha se realizado, e o dele também. 

Mais ou menos nessa época, meus pais queriam que eu fosse para uma escola de música famosa. Fiz uma prova de admissão onde você precisava acertar 90 de 100 perguntas.

Pergunta: Qual animal faz ‘Miaaaaaaaau'?

Minha resposta: cachorro. 

Pergunta: Que instrumento é esse?

*Som de bateria tocando*

Resposta: violão

NOTA FINAL: 3/100

Eu só queria saber de futebol. Mas eu nunca fui o mais talentoso no time. Sempre senti que tinha que trabalhar mais que todo mundo. O Porto tinha um programa para “promessas de elite”, no qual eles escolhiam dois garotos de cada categoria para treinarem juntos. A cada três meses, escolhiam novos jogadores. Eu passei uma década no Porto. Sabe quantas vezes me escolheram?

Zero.

Meu pai não conseguia entender. Ele assistia aos meus jogos da base no Porto, na Itália, Espanha, França, em todo lugar. A única viagem que ele perdeu foi para a Rússia. Depois do jogo, ele me dizia: “Você foi o melhor em campo”.

“Mas pai, eu perdi o ponta no lance do segundo gol.”

“Filho, você foi ótimo. Esses treinadores não sabem de nada.”

Uma vez, tive que pegar o ônibus do time no meio do caminho para o estádio por causa de uma prova na escola, e o clube tinha dito que estava tudo bem. Mas o treinador usou isso como desculpa para não me dar nem um minuto de jogo. Quando contei para o meu pai no caminho de volta, ele parou o carro, em plena rodovia.

De cem a zero em dois segundos.

Ele fez um retorno e pisou fundo no acelerador. Olhos arregalados. Não dizia nada. Ele estava voltando para tirar satisfação com o treinador.

“Pai, por favor……”

Quando chegamos lá, eu olhei para o céu e contei minhas bênçãos.

Graças a Deus, o ônibus já tinha ido embora. 

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Cortesia da Família Dalot

Um dia, quando eu tinha 12 anos, peguei carona com um companheiro de equipe e o pai dele para ir de Braga, onde a gente morava, para o Porto. Dois minutos na rodovia e BUM. Um acidente grande de carro.

O carro capotou e parou de teto para baixo.

Antes que eu entendesse o que estava acontecendo, o mundo estava de ponta-cabeça. Tinha vidro quebrado pra todo lado. Eu preso no banco de trás. Tiro o cinto. Saio escalando pela janela traseira aberta. Corro o mais rápido que posso.

Subia fumaça do carro, mas todos nós saímos vivos. Quando meus pais chegam, minha mãe está chorando. Aí vejo meu pai, e sabe qual a primeira coisa que digo para ele?

Juro por Deus, essas foram as minhas palavras:

“Pai, vamos, você tem que me levar.”

Ele diz: “Sim, filho. Vamos para o hospital. Não se preocupa, você vai ficar bem”.

Eu digo: “Hospital? Do que você está falando? Me leva para o Porto”.

Ele me olha, tentando entender.

“Para o hospital no Porto?”

“Não. Se eu perder o treino, não vou ser relacionado amanhã.”

Mesmo perto da morte, eu só pensava em futebol.

Minha mãe estava histérica, e meu companheiro e o pai dele voltaram para Braga, mas meu pai me levou para o Porto. Naquela mesma noite, fui dormir na casa de um amigo quando ouvimos um barulho na sala. A mãe dele tinha esvaziado a minha mochila, e um monte de vidro quebrado caiu no chão.

Agora você entende por que eu trabalho tanto?

Não é um botão que você pode desligar. É o meu default. É quem eu sou.

Mas, para ser totalmente sincero, sou grato por todas as dificuldades que tive na minha segunda temporada no United. Elas me ensinaram que a sua base é o treino. No fim de semana, a escalação não depende de você. Mas o treino de segunda-feira?

Aquele era o meu jogo.

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Zohaib Alam/Manchester United via Getty Images

Eu encarava como uma partida de Premier League. Quando os titulares estavam cansados, eu estava a 100%. No cinco contra cinco, eu estava em todo lugar. Descontando toda a minha raiva. Era o meu jeito de socar a parede. Comecei até a treinar cobranças de falta. Claro que eu sabia que nunca bateria uma, mas eu e o Bruno [Fernandes] alinhávamos as bolas depois do treino e bam! bam! bam! Depois de alguns meses, eu estava parecendo o Beckham. Juro. Ainda tenho os vídeos.

Quando fui emprestado para o Milan no verão seguinte, o plano sempre foi voltar para o United. Sem obrigação de compra. Lembro do roupeiro me mostrando o CT. 

“Ah, sim, o Nesta costumava sentar aqui.”

“O Ronaldinho amava aquela maca de massagem ali.”

Sabe quando os estádios são antigos e desgastados? O San Siro ainda é pura classe. Eu gosto de chamar de vintage. Digo o mesmo sobre o Milan.

Não importa o que a tabela diga, esse clube nunca sai de moda. 

A gente ia levar o Milan de volta para a Champions League pela primeira vez em oito anos se vencêssemos a Atalanta fora de casa. Isso foi em maio de 2021, e milhares de torcedores apareceram no CT antes do jogo. Alguns caras com tatuagens e megafones chegaram perto dos jogadores e disseram: “Esse é um dos dias mais importantes da nossa história. Estamos com vocês. Não nos decepcionem.”

Olhei para a minha direita e vi o Maldini. Ele era diretor na época. Poderia passar o dia todo no escritório dele, tomando espressos, sendo o Paolo Maldini. Mas estou te falando: todo santo dia, no sol, na chuva, no frio, ele estava lá assistindo a gente treinar.

Sempre de terno, no estilo italiano. Lembro que um dia ele me chamou de canto, e achei que ele fosse me dar algum conselho técnico. “Marca assim” ou “Dá o bote assado” . Ou ele poderia ser o cara dizendo: “Este é o meu clube, eu ganhei tudo aqui, então é bom você fazer isso e aquilo". Mas ele focava totalmente no jogo mental. 

“Diogo, você está se cobrando demais. Só mantenha a calma. Você é um jogador incrível, vai dar tudo certo.”

Quando o Maldini acredita em você, como você não vai acreditar em si mesmo?

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Jonathan Moscrop/Getty Images

Naquela temporada eu joguei na direita, na esquerda, fiquei no banco… Passei por tudo. Era a época da COVID, então dava pra ouvir o Mister Pioli gritando meu nome na TV a cada cinco segundos. (Ele geralmente estava certo. Sempre terei muito respeito pelo Mister Pioli.) Eu também aprendi muito com o Zlatan. Ele ficava cinco semanas fora com uma lesão feia e, no primeiro treino de volta, já entrava correndo nas divididas e chutando as pessoas. Ele tinha 40 anos. 

“Não vem aqui f**** com meu treino.”

Se você entregasse 99%, você estava fora.

O Milan fez eu me sentir jogador de futebol de novo. Quando garantimos a vaga na Champions League, fui jogar a Eurocopa sub-21 na Hungria e Eslovênia, onde perdemos a final. Três dias depois, estava numa espreguiçadeira em Dubai com a minha namorada, Claudia, bebendo drinks e comendo hambúrguer. Estamos prestes a entrar num restaurante quando meu telefone começa a tocar no meu bolso. 

Número desconhecido de Portugal. 

Eu atendo. 

“Diogo, você vai precisar voltar para a Hungria. Tivemos uma lesão, e o treinador quer você aqui para a Eurocopa.”

A Eurocopa de verdade.

Eu nunca tinha jogado pela seleção principal. Fiquei muito ansioso. 

Pela primeira vez na vida, eu não estava pronto. 

Claudia e eu corremos para o aeroporto para fazer um teste de COVID. Dois dias depois, eu estava lá para o nosso jogo de estreia, completamente fora de ritmo. Ouvir o hino nacional foi incrível. O Bruno estava lá, e também o João Félix, que estava no meu teste no Benfica comigo anos atrás. E de repente eu me dei conta: Caraca, eu vou conhecer o Cristiano.  

Graças a Deus, meu ídolo acabou sendo uma das melhores pessoas que eu já conheci. A gente conversava por horas no hotel, no ginásio, na mesa de jantar. Naquela época, eu gostava tanto do Milan que eu achava que dava pra dar um jeito de ficar. Eles me queriam muito, e eu também tive reuniões com outros clubes. Um dia recebi uma mensagem do Cristiano.

"Garoto, fica. Estou voltando para Manchester.”

Ele dizia que o United era o melhor clube do mundo, que a gente voltaria ao topo se mudássemos algumas coisas. Ele iria me ajudar e jogaríamos muitos jogos juntos. Conversei com meu empresário. Conversei com a Claudia.

O Mourinho me queria lá por 10 anos. Como a gente ia embora depois de dois?

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Jan Kruger/UEFA via Getty Images

Aquela temporada com o Cristiano foi quando eu realmente comecei a crescer como jogador e como pessoa. Perdi a conta de quantas previsões ele acertou, porque ele sabe muito bem o que é preciso para chegar ao topo. Se alguém pulasse uma série na academia, ele percebia. Tínhamos um atacante aqui que foi super bem na sua primeira temporada, mas o Cristiano disse: “Ele não vai vingar aqui”.

Eu disse: “Cris, ele fez dois gols hoje!”

Ele respondeu: “Sim, mas ele não teve a ambição de buscar o terceiro”.

Quando o seu rival é o Messi, nada nunca é o bastante.

Aprendi demais com o Cristiano. Outra vez, estávamos almoçando antes de jogar contra o Young Boys na fase de grupos da Champions, e ele disse: “Estou tão nervoso”. O cara tinha cinco títulos, mas queria demais o sexto. Eu juro que achei que ele estava brincando, mas aí olhei para baixo e a perna direita dele estava tremendo debaixo da mesa.

Ele conseguia processar qualquer coisa em três horas. Uma vez, ele foi para o banco no United e simplesmente não conseguiu lidar com aquilo. Ficou gritando e xingando.

Eu perguntei: “Cris, tá tudo bem?”

Ele disse: “Me dá três horas”.

Três horas depois, ele estava calmo.

Ele falou: “Sim, estou bravo. Mas você acha que isso vai estragar o resto do meu dia?”.

Até hoje, quando encontro ele na seleção, ele chega tipo: “Diogo, estou testando uma coisa nova”. Um aparelho médico. Um tratamento de recuperação. Um modelo mental.

A gente chama isso de mecanismos.

“E aí, Cris, novos mecanismos. O que você tem pra me mostrar?”

Para mim, é uma total loucura que alguém consiga sequer discutir se ele deveria ou não jogar a Copa do Mundo. Ele está correndo como se tivesse 22 anos? Não. Ele está fazendo um gol por jogo? Sim. Ele melhora todos nós? Sim. O cara tem 41 anos. Ele não precisa estar lá, jogando com uma molecada que tem idade para ser filho dele, mas ele está.

Toda vez que você encontra com ele, sai um pouco mais sábio.

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Hugo Amaral/SOPA/LightRocket via Getty Images

Depois que eu conheci o Cristiano, meu objetivo passou a ser não só trabalhar o máximo possível, mas me manter no melhor estado possível, mental e fisicamente. E no United, vai por mim, o lado mental é o mais difícil. 

Jogadores que vêm pra cá acham que vão viver a melhor fase da vida deles, mas se passam por dificuldades, ela pode facilmente virar a pior. No começo, você lê tudo o que publicam sobre você, porque acha que consegue lidar com isso. Depois, você só lê quando as coisas vão bem. Até que você para de ler completamente, porque se estiver jogando mal, você já sabe o que precisa fazer. E é engraçado, porque meu pai ainda assiste a todos os jogos e, quando eu olho meu telefone depois da partida, tem um monte de mensagens dele.

“Bom passe muito bem.” “marca ele mais forte!!”

No dia seguinte, ele reassiste ao jogo no iPad. Ele pega o celular, filma a tela do iPad e me manda o vídeo. Aquela imagem tremida, com os comentários dele ao vivo e um dedão tampando o canto da tela. 

“Bom posicionamento aqui.”

 Às vezes eu concordo, às vezes não. Mas uma coisa que aprendi é que algo nunca é tão ruim quanto o mundo lá fora diz.

“Pior lateral-direito da liga. Não deveria estar jogando pelo Man United.”

Eu sei que não é verdade. 

Se você fizer as coisas direito e se dedicar, no final dá tudo certo. Nesse clube, o tempo é o seu  melhor amigo. 

E a torcida do United ama uma história de superação.

Nunca vou esquecer do jogo contra o Wigan fora de casa, pela FA Cup em 2024. Eu sabia que ia ser titular, porque não tínhamos nenhum outro lateral disponível, mas eu estava doente. No dia anterior ao jogo, falei para o médico: “Estou com um pouquinho de febre, mas tudo bem”. Minha temperatura estava em 40 graus.

Fui para a academia cedo, mas apaguei nas cadeiras. No aquecimento, eu parecia um zumbi. Quando estávamos prestes a começar, o Casemiro olhou para mim e disse: “Diogo, qual é? O que você está fazendo? Vai para casa, cara”.

Dormi por 10 horas. No dia seguinte, fiz um gol. Era janeiro, um frio congelante, e aquela foi a única vez na vida que eu quis agradecer a um treinador por me tirar de campo.

Mesmo sendo português, uma xícara de chá nunca caiu tão bem.

Alguns meses depois, estávamos subindo as escadas de Wembley. Me virei para olhar para a metade vermelha da arquibancada, todos aqueles torcedores malucos cantando e vibrando, e me lembro de pensar: Quero esse sentimento, de novo e de novo.

Viajei direto para Mônaco com a Cláudia para assistir ao GP da Fórmula 1. Na marina, um cara se aproximou da gente e disse: “Obrigado”.

Eu perguntei: “Obrigado pelo quê?”

Ele respondeu: “Pela FA Cup. Aquilo significou o mundo para mim”.

Se ganhar a FA Cup pelo United é assim, imagina ganhar a Premier League. Imagina ganhar a Champions League.

Eu penso nisso todo santo dia.

Diogo Dalot | A Crazy Story | Manchester United | Portugal | World Cup 2026 | The Players’ Tribune
Justin Setterfield /The FA via Getty Images)

Claro, tem também a Copa do Mundo. O sonho dos sonhos. Mas, neste verão, vai ser muito diferente. Não seremos apenas 26 jogadores. 

Seremos 26 + 1. 

Quando perdemos o Diogo Jota no verão passado, eu me recusei a acreditar. Eu estava treinando sozinho em Portugal quando olhei o celular e vi umas 10 mensagens da Claudia. Liguei para o Bruno. Mandei mensagem para todo mundo que pudesse saber de algo. Mesmo quando a morte dele foi confirmada, parecia algo cruel demais para ser verdade. Poucas semanas antes, estávamos comemorando o título da Nations League juntos. Eu ainda conseguia ver ele do meu lado, levantando o troféu e dançando debaixo da chuva de confetes.

Ele tinha acabado de casar. Tinha três filhos lindos. Aos 28 anos, ele ainda tinha tanto para viver e entregar.

Ser companheiro de equipe dele foi uma honra. Lembro de uma das primeiras vezes que ficamos juntos no banco da seleção de Portugal, só assistindo ao jogo, normal. Marcaram um lateral contra a gente. Do nada, o Diogo pulou do banco, deu um pique até a linha lateral e começou a berrar com o quarto árbitro.

“Como você não viu isso?! Quando é que você vai marcar algo para a gente?! Vamos lá!!!”

Estou te falando, ele estava jantando o cara!

“Ele claramente tocou na bola!! Eu vi do banco!!!”

Ah, e esqueci de mencionar... isso era um amistoso.

Quando ele voltou pro banco, eu estava quase preocupado.

“Diogo... tudo bem?”

Sabe o que ele fez?

Virou pra mim e deu um sorriso.

“Claro. Tem que pressionar o juiz.”

😉

Esse era o Diogo em uma imagem. Todos nós sabíamos que ele merecia jogar mais por Portugal, mas mesmo no banco ele era humilde o suficiente pra ajudar o time. Ele sabia até o nome dos árbitros.

“Ei, Mike, como estão seus filhos? Bem? A propósito, aquela bola era nossa. Você está devendo uma pra gente.”

Diogo Dalot | A Crazy Story | Manchester United | Portugal | World Cup 2026 | The Players’ Tribune
Matthias Hangst/Getty Images

Eu já ouvi caras no banco torcendo para o próprio time perder, porque talvez assim ganhassem uma chance de jogar. O Diogo tirava o melhor de qualquer situação. Nos treinos, ele pedia passe ruim. O Bruno tocava a bola perfeita, redondinha, direto no pé bom dele.

O Diogo chutava………

……… e o gandula tinha que ir procurar a bola no mato.

“Bruno, mais uma. Pingando! No meu pé esquerdo!”

Aí vinha uma bola alta, na perna ruim dele e um pouco para trás.

PÁ!

Na gaveta.

Gooooooooool.

Uma comemoração engraçada. Um sorrisão no rosto.

Aquele era o Diogo Jota.

Quando o caixão dele foi carregado para fora da igreja e vi o sofrimento da esposa dele, meu coração se partiu em mil pedaços. No ônibus de Portugal, o Diogo sempre sentava ao lado do Rúben Neves, o melhor amigo dele no time, mas na convocação seguinte o assento dele estava vazio. O Rúben estava ali sentado sozinho, e dava para ver que ele não sabia como lidar com aquilo. Nenhum de nós sabia.

Acho que tudo o que podemos fazer é correr atrás do sonho dele. Ele queria muito ver Portugal ser campeão do mundo. Não vamos lutar apenas pelo nosso país.

Vamos lutar pelo Diogo.

Diogo Dalot | A Crazy Story | Manchester United | Portugal | World Cup 2026 | The Players’ Tribune
Diogo Cardoso/DeFodi via Getty Images

Nas semanas seguintes à perda dele, percebi a sorte que eu tenho. Por estar vivo. Por estar em um clube tão grande. Por representar meu país. Por ainda ter as pessoas que amo. No ano passado, me casei com a Claudia, o amor da minha vida. Ela esteve ao meu lado desde a primeira vez em que a vi em uma balada em Braga, quando eu tinha 18 anos. Temos uma filha, a Clara, de dois anos, e em março demos boas-vindas a este mundo ao Tomás.

É claro que nada nunca é perfeito. Em abril deste ano, a Clara precisou ficar internada no hospital. Tiveram que tirar sangue dela. Colocar agulhas na pele dela. Ela ficou super traumatizada. Para um pai, ver a filha sofrer assim é muito difícil. Toda vez que uma enfermeira entrava no quarto, ela dava um pulo na cama e dizia: “Não, não, não!”. Nos primeiros cinco dias, ela não deixava ninguém encostar nela além de mim. Se os médicos quisessem medir a temperatura dela, eu que tinha que fazer. Não podia nem ser a Claudia.

Eu não viajei com o time para treinar na Irlanda. Como pai, eu queria ficar no hospital cada minuto do dia.

Mas, todo dia, eu pegava o carro e ia para Carrington. Treinava por duas horas sozinho e depois voltava correndo para o hospital. Quando o time voltou da Irlanda, eu estava no treino de sábado. Não sabia se seria relacionado para o jogo. Mas eu jogo no United. Tinha que fazer o meu trabalho. Tinha que saber que fiz tudo o que podia para estar pronto.

Felizmente, a cirurgia foi um sucesso e, depois disso, minha filha só queria saber de “mamãe, mamãe, mamãe”. Uma semana depois, ela já estava de volta em casa, assistindo ao papai jogar pela TV. Quando ela me vê, aponta para o escudo e diz: “United! United!”.

Educamos a menina direitinho.

Diogo Dalot | A Crazy Story | Manchester United | Portugal | World Cup 2026 | The Players’ Tribune
Zohaib Alam /Manchester United via Getty Images

Quando sentei naquele café em Braga, oito anos atrás, eu nunca poderia ter imaginado que tudo isso aconteceria. Já joguei quase 250 partidas por este clube. Os momentos mais difíceis foram pesados de verdade. Já teve épocas aqui em que todo mundo massacrava o clube, todo mundo dizia que o lugar estava arruinado, que as piores pessoas trabalhavam aqui, que os piores jogadores estavam aqui, que o clube era uma bagunça. Quando você ouve isso repetidamente, sabendo que faz parte daquilo, dói.

Mas eu sei que este lugar está melhor do que quando eu cheguei. Eu vejo isso nos bastidores. Vejo no jeito que as pessoas conversam.

Consigo ver pela evolução que tivemos nesta temporada.

Este clube vai voltar a vencer, 100%.

Não posso ir treinar todo dia sem acreditar nisso. Se você não acredita, este não é o clube para você. Sou lembrado disso toda vez que entro de carro em Carrington e vejo as letras vermelhas gigantes em cima do estacionamento:

MANCHESTER UNITED

Aí eu ando pelo corredor e vejo todas aquelas lendas erguendo troféus enormes.

Um dia.

Em breve.

Tenho certeza absoluta.

Com carinho,

— Diogo Dalot

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