Uma Prece do Bueiro

Ahmad Mora/GettyImages

To read in English, click here.

Ninguém deveria saber o meu nome. 

O fato de você estar lendo isso é uma prova da graça de Deus.

Minha mãe morreu quando eu tinha 2 ou 3 anos. Eu era muito novo para lembrar de qualquer coisa, exceto dela me segurando no colo. Eu, meus 6 irmãos e meu pai morávamos em um apartamento de um cômodo só em uma comunidade em Lagos. O nome é Olusosun. Talvez você já tenha ouvido falar. Fica ao lado de um aterro sanitário famoso. O maior da África. Dizem que despejam 10 mil toneladas de lixo lá por dia. Resíduos químicos. TVs quebradas. Tudo o que você puder imaginar.

Aquele era o meu quintal.

Quando comecei a jogar futebol e queria chuteiras, eu ia para o lixão com meus amigos procurar.

“Ei, achei uma Nike estragada. Pé esquerdo! Tamanho 40!"

(Uma hora depois…….)

“Ei, achei uma Puma!!!! Pé direito!!!! Tamanho 42!!!!!”

Aquele era um dia de sorte. A gente tinha um par de chuteiras para dividir entre todo mundo.

A maioria das famílias no nosso bairro revendia sucata do lixão, mas meu pai trabalhava como motorista quando eu era pequeno. Depois que a minha mãe morreu, ele perdeu o emprego e começou a lavar pratos na cozinha de uma delegacia de polícia. O dinheiro não era suficiente para pagar o aluguel. Lembro de uma noite, quando eu tinha uns 12 anos, em que o proprietário cansou de esperar e cortou a nossa luz. Ficamos sentados no escuro em um cômodo só — nós 7 — sem TV. Nada. Lembro que saí e sentei na beira de um bueiro — literalmente, um bueiro — e comecei a chorar.

Perguntei a Deus: "Que tipo de vida é essa para uma criança???"

Nessa época, parei de jogar futebol completamente. Eu tinha que ajudar a minha família a colocar comida na mesa, entende? Minhas irmãs, elas vendiam laranjas. Não em um mercado, mas na rua, mesmo. Em Lagos tem muito trânsito, então dá para ganhar dinheiro esperando na beira da estrada e correndo entre os carros com comida. Eu era muito veloz, então era bom em vender água mineral. Colocava uma caixa com 12 garrafas na cabeça e esperava alguém buzinar ou acenar. Aí eu disparava até o carro antes do sinal abrir.

Eu pensava: “Vou ser o garoto mais rápido que eles já viram.”

Eu até sentia prazer naquilo. Era quase como um treino.

Tinha dia que eu voltava para casa tão cansado que perguntava às minhas irmãs: “Posso só vender laranjas com vocês amanhã?”

Uma Prece do Bueiro
Edwin Ndeke/Anadolu via Getty Images

Meu irmão mais velho, Andrew, tinha o trabalho mais difícil de todos. Ele acordava às 3 da manhã para vender jornais esportivos na rua. Às vezes ele trazia um jornal para casa e eu via o Drogba ou o Zlatan na capa, e ficava maravilhado com eles. Parecia que viviam em outro mundo. Para mim, o futebol era só algo que eu fazia quando não estava trabalhando. Infelizmente, eu estava sempre trabalhando.

Se tivesse dinheiro envolvido, eu estava lá. Cheguei até a participar de um programa de TV. Era tipo um show de perguntas e respostas de família, e eles chamavam pessoas da plateia no final. Graças a Deus, fui chamado, me saí super bem e ganhei uns 10 mil nairas ao vivo na TV.

Aquela era a maior quantidade de dinheiro que eu já tinha segurado na vida.

Eram uns 6 euros.

No dia seguinte na escola, meus amigos ficaram meio que rindo de mim.

“Mano, você estava na TV ontem à noite! Em um dia você está vendendo água na rua. No outro você tá na TV. E agora está aqui? Que porra é essa?”

Mas eu não ligava. Eu era correria. Por alguns anos, arrumei um trabalho para um pastor em Lagos. Um bem famoso. Ele até aparecia na TV. Tinha um notebook lá na igreja, e meu trabalho era fazer as pessoas cadastrarem o e-mail delas para receber a newsletter dele. A cada 10 e-mails, eu ganhava o equivalente a uns 10 centavos. Cara, eu era tão bom que talvez tenha pegado até o seu e-mail.

"Oi?? O que é isso?? O Victor me pegou de novo. Cancelar inscrição!"

Depois de um tempo, eles me promoveram e eu passei a vender os livros de estudo bíblico do pastor na rua. Um se chamava ‘Rhapsody of Realities’. Meus colegas de escola passavam por mim na rua e riam: “Agora ele está vendendo Bíblias??? O que está acontecendo???”

Eu te disse. Eu era correria.

Tudo o que eu ganhava, eu dava para os meus irmãos para comprar comida e pagar o aluguel. Na maioria das noites, eu dormia na igreja, mesmo. Nossa casa mal tinha telhado. Estava começando a desabar, então o proprietário disse: “Beleza, eu vou consertar. Não se preocupa”.

Ele mandou uns caras lá, eles tiraram metade do telhado e nunca mais voltaram! (Sabe, eu rezo por todo mundo. De verdade. Menos para proprietários de imóveis. Sempre acabo esquecendo deles nas minhas preces).

Uma Prece do Bueiro
Indo de volta para a minha casa em 2024. / Fotos de Victor Modo

Se você tivesse um trabalho honesto para mim, eu fazia. Minha irmã costumava me dar os celulares velhos dela. Sabe aquele todo quebrado, nojento? Era esse que sobrava para mim. Se você me ligasse às duas da manhã com um trabalho, eu atendia.

Eu até fazia trabalho de soakaway. Você sabe o que é soakaway? Na Europa, provavelmente não. Mas na África, é tipo um poço seco que você mesmo cava. Você precisa de alguém para descer lá no fundo em uma escada. E outro cara fica lá no topo. Ele é o “cara da segurança”. Ele olha para baixo no buraco e grita: “Tudo bem aí embaixo, irmão?”

Eu não era o cara da segurança.

Eu era o outro cara.

Hahahahah.

Trabalho sujo, mano.

Por quase dois anos, eu só joguei futebol no time da igreja. Aí, quando eu tinha 15 anos, estava jogando com uns amigos e alguém disse: “Ficou sabendo que as Super Águias vão estar em Lagos na semana que vem?”

Eu disse: “Onde? Me dá o endereço”.

Ficava a 90 minutos de ônibus e eu não tinha dinheiro nenhum. Então eu pedia carona. Em Lagos, temos essas vans amarelas chamadas danfo. São tipo um ônibus comunitário. Os motoristas são loucos. E se você é criança, ou precisa de uma força, os motoristas deixam você pular para dentro e sentar no colo de alguém. Dá para enfiar 20 pessoas em uma van se você se esforçar de verdade. Então eu sentava nos joelhos de alguém por 30 minutos e eles me deixavam no próximo ponto. Depois no próximo. E no próximo.

“Surfe” de danfo.

Finalmente cheguei ao estádio, e devia ter umas 300 crianças lá, só tentando fazer os treinadores do Sub-17 as verem. Tinha tanta criança que eles não podiam nem usar bola. Eles só punham todo mundo para correr e iam eliminando quem era lento.

Eu corri pela minha vida.

No fim do dia, eles me disseram: “Volte amanhã”.

E eu corri pela minha vida de novo.

Foi assim por meses, até que finalmente pudemos jogar com bola.

E eu estava jogando demais, também. Eu realmente achei que tinha conseguido. Depois de três meses, sobraram uns 30 de nós, e eles nos disseram: “Venham amanhã para a peneira final”.

No fim do treino, eles reuniram todo mundo. Dos 30, chamaram 27 nomes.

Apenas 3 foram cortados.

Eu fui um desses 3. Sonho morto. Implorei ao treinador por uma resposta.

Ele me disse: “É apenas uma questão técnica. Sinto muito”.

Lembro de voltar para casa de ônibus, sentado no colo de alguém, e comecei a soluçar.

O cara perguntou: “O que houve?”

Eu disse: “É uma longa história”.

“Mas por que você está chorando?”

“Eu sou jogador de futebol. Ou estava tentando ser”.

Uma Prece do Bueiro
Victor Osimhen

A maioria das crianças teria desistido. Mas eu era tão apaixonado por futebol que não consegui. Treinei por conta própria e os meses se passaram. Até que um dia alguém me disse: “A seleção nacional vai voltar para Lagos em duas semanas”.

Eu disse: “Assim que eles chegarem, me liga”.

O dia chegou, saí correndo do trabalho, peguei o ônibus e fui direto para o estádio. Quando cheguei...

600 garotos. Todo mundo implorando para ser visto.

Tinha tanta gente que o Emmanuel Amunike, o treinador, pegou o microfone e disse: “Eu não consigo ver todos vocês hoje. É impossível. Estaremos em Abuja em duas semanas. Se você SABE que é bom — bom DE VERDADE — então vá para Abuja me ver”.

Abuja ficava a 9 horas de carro. E eu não tinha carro. Eu conhecia um cara que, acho que você poderia chamar de empresário. Mas tipo um empresário de bairro. Eu disse para ele: “Já era”.

Duas semanas depois, ele me ligou e disse: “Consegui um carro emprestado. Vamos”.

Eu perguntei: “Onde vamos ficar?”

Ele disse: “Não se preocupa, eu tenho um irmão em Abuja”.

Na manhã anterior à viagem, eu fiquei muito nervoso. Eu nunca tinha saído da minha cidade. Ali era confortável. Quatro horas se passaram e o empresário estava me ligando.

Eu disse para ele: “Esquece. Não vou a lugar nenhum. Estou de boa aqui”.

Foi aí que meu pai ouviu o que estava acontecendo e disse: “Você precisa ir”.

Não teve nenhum grande discurso. Ele só disse: “Você precisa ir”.

E eu sabia que ele estava certo. Saí de casa com uma mochila e duas trocas de roupa. A que eu estava no corpo e um uniforme verde na bolsa. Verde da sorte. Dirigimos até Abuja no carro mais velho que você possa imaginar e chegamos à meia-noite.

Na manhã seguinte, o sol nasceu e eu vi 1 milhão de crianças com um sonho.

Talvez 1 milhão seja exagero, mas não por muito. Devia ter uns 900 garotos esperando do lado de fora do estádio. No primeiro dia, eu nem entrei em campo. No segundo dia, um dos treinadores finalmente apontou para mim.

“Camisa verde. Vamos. Você tem 15 minutos.”

Apenas 15 minutos para mudar minha vida. Eu sabia que a única forma de impressioná-los era correndo. Então eu corri até suar sangue.

Acabei fazendo 2 gols em 15 minutos.

Pensei que talvez tivesse uma chance. Mas aí os treinadores pegaram o microfone e falaram com a multidão. Chamaram alguns nomes, e eu não ouvi o meu. Todo mundo começou a caminhar para o estacionamento.

Meu sonho estava morto. Eu estava prestes a entrar no carro quando ouvi gente gritando.

“Ei! Ei! O cara de verde!”

“Hã???”

Eu me virei e vi uns garotos acenando para mim.

Apontei para o meu peito, como nos filmes.

“Eu???”

Olhei para trás.

“O cara de verde!”

Verde da sorte.

Corri de volta e eles disseram: “Ei, o treinador quer te ver. O médico do time disse para ele que você foi o cara que fez dois gols. É você?”

Eu disse: “Sou eu!!! SOU EU!!!!”

Voltei para o estádio e o médico estava apontando para mim e fazendo o número dois com os dedos.

Ele disse: “É esse garoto".

Se o médico do time não tivesse feito aquilo, eu não seria jogador hoje. Provavelmente estaria no fundo de um poço.

15 minutos para mudar minha vida. Eu sabia que a única forma de impressioná-los era correndo. Então eu corri até suar sangue."

Victor Osimhen

Ainda assim, as peneiras continuaram. Se você fosse aprovado, ficava com o time em um hotel. Mas eu ainda estava na casa do irmão do meu empresário. Eu ajudava a levar os filhos deles para a escola e limpar a casa. Lembro que eu era tão tímido que não entendia que a comida que a esposa dele colocava na mesa era para mim. Eu chegava do treino, via a comida e achava que era sobra. Eu pegava um pedaço de pão e ia comer escondido atrás da casa.

Um dia, ela estava cozinhando e perguntou: “O que foi? Você não gosta da minha comida?”

Eu disse: “É para mim???”

Ela falou: “O quê? Sim, claro! Você deve estar morrendo de fome!”

Quando eu finalmente entrei no time de verdade e me deram uma cama no hotel, eu disse a ela: “Obrigado. Você me salvou. Vou sempre rezar por você. Agora você é minha família”.

Minha vida mudou muito rápido. No ano seguinte, fomos jogar a Copa do Mundo Sub-17 no Chile e eu explodi. Fiz 10 gols em 7 jogos e ganhei a Chuteira de Ouro. Fomos campeões mundiais. Ninguém esperava. Nem eu esperava. Lembro que quando voltei da Copa, me deram um pouco de dinheiro. Eu finalmente era milionário, mas em nairas, infelizmente. Hahahah. Então, uns poucos milhares de euros. Liguei para as minhas irmãs e disse: “Vou tirar vocês de uma casa de um cômodo e levar para uma de dois cômodos. Está tudo pago. Só peço que me incluam em suas orações”.

Alguns anos depois, assinei com o Wolfsburg e fui abençoado com mais dinheiro do que jamais vi nos meus sonhos. Lembro que ficava atualizando o aplicativo do banco no meu celular. Atualizar. Ainda pobre. Atualizar. Ainda pobre. Atualizar...... e o número mudou. O número ficou grande. Parecia de mentira. Eu fiquei maluco. Literalmente, eu pulava de um lado para o outro, maluco. 

Dois anos antes disso, eu estava vendendo garrafas de água por 10 centavos.

Em um dia bom, eu ganhava uns 2 dólares.

Agora eu via um milhão. No meu celular.

Esfreguei os olhos.

Estou sonhando?

Atualizar. Atualizar. Atualizar.

Não, é real.

Ajoelhei e agradeci a Deus.

Liguei para o meu pai e disse: “Você não precisa mais se preocupar em pagar aluguel para o proprietário. Agora, eu estou transformando você no proprietário”.

Eu até consegui um motorista para ele. Meu pai estava ficando velho e tinha problemas cardíacos. Mas ele era tão orgulhoso que me disse: “Para que eu preciso disso? Eu era motorista! Guarde o seu dinheiro!”

Eu disse: “Mas essa pessoa também precisa de um emprego”.

Ele respondeu: “Tá bom. Certo. Vou mantê-lo por perto e você pode pagar ele. Mas quem dirige sou eu”.

Ele ficava dirigindo por aí com o motorista no banco do passageiro, tipo um braço direito. Tudo o que ele queria era ficar na delegacia jogando conversa fora com os velhos amigos dele.

Quando saí do Wolfsburg para o Lille, alguns anos depois, a saúde dele começou a piorar. Eu estava fora o tempo todo. Aí, no início da COVID, ele foi internado. Eu estava preso na França, completamente sozinho. O futebol tinha parado. Os aeroportos estavam fechados. Eu ligava para o meu empresário, tentando organizar um voo particular para a Nigéria. Consegui até autorização da aviação para pousar. Eu só precisava que o clube e meu empresário dissessem que eu podia ir.

Eu esperava, esperava, esperava.

Ele piorava.

Comecei a entrar em pânico. Ligava de hora em hora, implorando a eles.

Mas foi aí que comecei a entender o lado sombrio do futebol. O negócio. Eles queriam me vender, entende? Estavam discutindo uma transferência. Então meu antigo empresário ficava me dizendo: “Bem, é complicado. Só espera. Espera um pouco”.

Eu estava ficando louco. Não conseguia dormir. Uma manhã, acordei e deixei meu celular no andar de baixo para tomar banho. Nunca vou esquecer, saí do banho… e eu tinha uma foto da minha mãe ao lado da cama, sempre. Olhei para a foto e senti algo. Comecei a chorar. Pensei: tem algo errado. Tem algo muito errado.

Desci e tinha 20 chamadas perdidas da minha família. Retornei para o meu irmão no FaceTime e ele disse: “Ele se foi”.

Aí ele virou a câmera e me mostrou o meu pai.

“Você deveria se despedir…”

Lembro que joguei o celular longe e simplesmente fiquei louco. Quebrei a casa inteira. Destruí tudo. Eu estava fora de mim. O barulho fez meus vizinhos virem ver como eu estava, e eu amo meus vizinhos. Eles foram como uma família para mim quando eu estava sozinho na França. O cara tentava me acalmar, dizendo que eu tinha muito pelo que viver.

Por umas 5 ou 6 horas ele ficou comigo, e provavelmente me impediu de fazer alguma besteira.

Eu me senti tão culpado, porque todos os filhos e netos dele estavam lá com ele.

Apenas uma pessoa não estava ao seu lado. Eu.

Eu estava com muita raiva. Eu surtei.

Pensei: se futebol é isso, qual é o sentido? Eu só quero estar com a minha família.

Liguei para o meu antigo empresário e perguntei: “Posso ir enterrar meu pai?”

Ele disse: “Pode ir. Mas volte na sexta-feira”.

Eu pensei: “Sexta-feira? Que se dane o futebol”.

Quando voei de volta para casa, realmente achei que nunca mais jogaria. Estava com nojo de tudo.

Digo às pessoas o tempo todo: “Eu já vi de tudo, mano. Eu vi de tudo mesmo”.

Elas não entendem o que quero dizer com isso.

Não estou falando apenas sobre crescer ao lado de um lixão.

Não estou falando sobre crescer sem luz.

Estou falando sobre perder de verdade. É algo que vai muito fundo.

Quando saí do Lille, eu estava perdido.

Quando cheguei ao Napoli, eu me encontrei. Tenho muito a agradecer à cidade, aos torcedores e aos meus companheiros por mudarem a minha vida. Me lembro da primeira reunião que tive quando cheguei, eu disse ao treinador, o Sr. Spalletti: “Não estou bem. Estou com muita raiva agora. Muito triste. Minha cabeça não está no lugar”.

Mas ele foi como um pai para mim. Quando eu não fazia algo certo, ele caía matando. Mas ele acreditava em mim do fundo da alma, eu juro. Ele achava que eu podia ser o melhor do mundo.

Eu marcava 2 gols em um jogo, ele vinha até mim no vestiário e ficava cara a cara comigo. Quando ele queria te dizer algo, encostava a cabeça dele na sua e quase sussurrava…

Cazzo!! Você poderia ter feito 4 hoje. Vou te mostrar o vídeo amanhã”.

Uma Prece do Bueiro
FILIPPO MONTEFORTE/AFP via Getty Images

É engraçado, porque logo que cheguei, tínhamos perdido a velha guarda. Koulibaly, Insigne, Mertens, todos saíram. Mas naquela temporada 2022–2023, trouxemos Kvara, Raspa e Kim Min-Jae e todo mundo pensou: “Opa! Isso aqui está interessante…”

Começamos a temporada jogando de forma tão magnífica que eu sempre digo às pessoas que até as avós começaram a aparecer no CT. Em Nápoles, quanto melhor você está, mais velhas são as pessoas que você vê no CT. Primeiro, só os ultras. Os jovens. Depois, os jovens e os pais. Depois, o filho, o pai e o avô. Mas em Nápoles, quando você está no topo da tabela, de repente as avós começam a aparecer em cadeiras de rodas.

Dizendo: “Estou rezando por você, meu filho”.

“Obrigado”.

“Você não precisa jogar como o Maradona. Porque ninguém consegue jogar como ele. Só queremos que você corra e sue pelo escudo”.

Lembro que estávamos com 8 pontos de vantagem na liga e começamos a pensar “Beleza, já ganhamos”.

É natural. A gente nunca brincava no treino porque o Sr. Spalletti não permitia. Mas nesse dia a gente estava se sentindo confiante demais, jogando num campinho reduzido, e os caras estavam caindo, exagerando, gritando: “Falta! Juiz! Ei!”, só para fazer todo mundo rir.

Spalletti parou o jogo e disse aos assistentes: “Tirem as traves!”

Eles olharam para ele tipo: “O quê?”

“Tirem as traves!!!!”

Corremos por 30 minutos sem bola.

No dia seguinte, no treino, estávamos rindo no vestiário de novo.

Fomos para o campo… nada de bola.

Corram”.

“Mas, mister…”

“Corram até eu mandar parar!!!!!”

“Mister, por favor…”

“Corram!!!!!”

Fomos todos falar com o capitão, Di Lorenzo, e ele disse: “Gente, o que eu posso falar para vocês?”

Então fomos pedir desculpas ao treinador, praticamente de joelhos, e ele não disse nada.

“Cazzo!!!!!! Corram!!!!!”

Não vimos a cor da bola por dois dias.

Quando vimos aquela linda bola de futebol de novo, quase choramos lágrimas de felicidade.

Ninguém nunca mais contou uma piada. 

A gente não podia nem reclamar, porque o Sr. Spalletti estava dormindo no escritório dele naquela época. Ele montou uma caminha lá. Como no exército. Ele tinha esposa em casa, mas por cinco meses, dormiu ali.

Lembro que, antes dos grandes jogos, ele nos dizia: “Vocês não entendem o que vai acontecer se ganharem o título. Eu? Talvez falem de mim por 2 ou 3 anos. Mas de vocês, jogadores, eles vão falar até vocês serem velhinhos”.

Todo mundo sempre me pergunta sobre o gol que marquei no último dia, o gol que garantiu o Scudetto. Bom, foi um gol. Foi incrível. Mas estávamos jogando fora de casa. A ficha do que tinha acontecido e do que tínhamos alcançado só caiu quando voltamos para a cidade e vimos a emoção das pessoas. É algo que não dá para colocar em palavras. O mais perto que consigo te explicar é o seguinte...

Pouco antes de ganharmos o Scudetto, havia uma multidão de torcedores do lado de fora do nosso CT. Parei o carro para apertar a mão deles e um cara estava lá com o filho, segurando o celular. Ele queria me mostrar um vídeo. Era um vídeo de quando o Maradona estava lá, nos anos 80. O cara não falava uma palavra de inglês. Ele tinha lágrimas nos olhos.

Eu perguntei: “O que ele está dizendo?”

Outra pessoa se aproximou para traduzir.

Ele disse: “Por mil anos eles vão se lembrar de você. Quando todos nós formos poeira, eles se lembrarão de você”.

É por isso que eu jogo futebol. Por esse sentimento.

Ganhar um título é uma coisa. Mas ganhar um Scudetto pelo Napoli pela primeira vez em 33 anos é fazer história de verdade.

É por isso que eu escolho os times que escolho.

Uma Prece do Bueiro
Alessandro Sabattini/Getty Images

Quando saí do Napoli, sabe quanta gente me disse: “Não vá para a Turquia. Você está louco?”

Um antigo empresário chegou a me dizer: “Não, não, não. Não vá para lá. Não é uma mudança inteligente”.

Mas eu penso com o coração. Eu queria jogar pelo Galatasaray. Como eu poderia sair da emoção do Napoli para qualquer clube comum? Impossível. Tedioso.

Eu queria ir para um dos três maiores clubes do mundo em termos de paixão. Esse é o tipo de gente que realmente me entende. Os que vivem o futebol de um jeito diferente.

Quando falei com o Okan Buruk por telefone, antes de assinar, ele me disse: “Estou aqui para te dizer que eu, pessoalmente, como pessoa, como treinador e como pai, quero você no meu clube. E eu sei que essa torcida vai te amar muito. Mesmo quando você estiver passando por um momento difícil, este clube é o que vai te dar suporte”.

Antes de subir no avião para a Turquia, coloquei tudo nas mãos de Deus.

Quando o voo pousou, havia 3 mil torcedores do Gala me esperando no meio da noite. Em um aeroporto particular. Eles estavam rastreando o meu voo! As pessoas me receberam de braços abertos. Esse sentimento vale mais do que dinheiro.

Se você não acredita em mim, pergunte ao Van Dijk. Eu estava conversando com ele depois do nosso jogo da Champions League contra o Liverpool e ele disse: “Cara, que atmosfera é essa?!”

Eu disse: “Irmão, para ser sincero, se eu nunca tivesse vindo aqui e alguém me contasse, eu não acreditaria”.

Uma Prece do Bueiro
Agit Erdi Ulukaya/Anadolu via Getty Images

Quando vim para cá, todo mundo disse: “O que ele está fazendo? Por que ele quer o Galatasaray?”

Bom, se você conhece a minha história, já sabe a resposta para essa pergunta. Quando ganhei a Chuteira de Ouro no Mundial Sub-17, um repórter me perguntou: “Você veio do nada. Agora todo mundo conhece o seu nome. O que você quer alcançar?”

Minha resposta agora é a mesma de 15 anos atrás, quando eu estava nas trincheiras.

Grandeza.

Quero ser uma inspiração para as crianças que cresceram como eu. Existem milhões de nós. As crianças que têm que trabalhar para conseguir a próxima refeição. Vendendo água no trânsito. Revirando o lixão atrás de sucata. No corre. Sonhando. Rezando...

O que me traz felicidade não é o dinheiro. Definitivamente não é a fama — que é bem chata, para ser sincero.

O que me traz alegria é voltar para casa na Nigéria, ou caminhar pelas ruas de Istambul usando meu moletom normalmente, e continuar sendo EU mesmo.

Eu posso falar com todas as crianças e dizer: “Ei, eu era você. Um garoto com um tênis da Nike e outro da Puma. Um tamanho 40 e outro 41”.

Pela graça de Deus, eu consegui.

Que a minha história seja prova para essas crianças.

Você pode começar no bueiro e, ainda assim... ainda assim...

Seu nome pode estar na boca deles por mil anos.