Uma Carta para as Crianças da Bósnia

John Thys/AFP via Getty Images

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Queridas crianças da Bósnia e Herzegovina,

Eu tenho apenas uma mensagem para vocês.

Nada é impossível.

Nada.

Temos sorte de sermos bósnios. E não digo isso apenas como um homem que realizou seu sonho, mas como um menino que sobreviveu à guerra e que poderia, muito facilmente, ter tido um destino bem diferente.

Eu não gosto de falar sobre o Cerco de Sarajevo, mas é importante que vocês entendam como realmente foi. Eu tinha seis anos quando começou. Me lembro de quando as primeiras sirenes tocaram, e minha mãe me agarrou e nos escondemos atrás do armário de sapatos. Esse foi o primeiro dia. E durou quatro anos. Nós não entendíamos totalmente o que estava acontecendo, mas, todos os dias, ficávamos apavorados. Quando nossa casa se tornou insegura demais para ficarmos, nos mudamos para o apartamento dos meus avós. Acho que tinha uns 40 metros quadrados. Éramos 15 pessoas — primos, tias, tios — todos dormindo no chão.

A gente jogava Banco Imobiliário. Vocês conhecem esse jogo? Era perigoso ir para a rua, porque os atiradores de elite tinham cercado a cidade, então eu e meus primos sentávamos no chão, perto da varanda, e jogávamos por horas. Ouvíamos as sirenes e as bombas lá fora. Às vezes o chão tremia e as peças do jogo caíam e ficavam espalhadas.

Mas sempre que jogávamos, tinha esses pequenos momentos em que a gente se perdia no jogo. Por alguns minutos, a gente esquecia da guerra.

Esquecíamos que o mundo estava desabando ao nosso redor.

Por um instante, tínhamos permissão para ser apenas crianças.

A gente queria muito jogar futebol na rua. Todos os dias víamos pessoas inocentes sendo levadas por ambulâncias. Mas como você tranca uma criança dentro de casa por quatro anos? Não tem como, e nossos pais sabiam disso. De vez em quando, quando parecia calmo, minha mãe abria a porta da frente e eu corria para jogar com as outras crianças do bairro.

Nunca vou esquecer do olhar dela ao abrir aquela porta. Ela tinha um sorriso discreto, porque ficava feliz em me ver brincar. Mas aí eu olhava para os olhos dela e conseguia ver o quanto ela estava preocupada se eu voltaria para casa.

Uma Carta para as Crianças da Bósnia | Edin Džeko | The Players’ Tribune | Copa do Mundo 2026
Cortesia da Família Džeko

Todos nós tínhamos que sair de vez em quando. A água vivia acabando, então tínhamos que pegar baldes e fazer fila em uma das ruas para enchê-los. Os elevadores não funcionavam. Não havia energia. Então íamos a pé. 3º andar... 4º andar... faltavam mais seis. Eu devia ser a criança com o melhor preparo físico de Sarajevo. Conseguir comida também era uma luta. Nossos pais arriscavam a vida por isso. Mas, às vezes, caíam caixas cheias de comida do céu, como num passe de mágica. Nós as chamávamos de nossas lancheiras. Não sabíamos de onde vinham, e nem nos importávamos. Eram rações militares. Para nós, o gosto era incrível. Quando você come a mesma coisa todo santo dia, pasta de amendoim parece um presente divino.

No fim das contas, sobrevivemos. Olhando para trás, fico impressionado com o quanto fomos fortes. Éramos apenas criancinhas. Mas aquela guerra não fazia sentido nenhum. Tantas pessoas inocentes mortas, e para quê?

Por dinheiro. Poder. Ego.

Por nada.

Quando vejo guerra no noticiário hoje, fico enjoado.

Não quero ver isso em lugar nenhum.

Por alguma razão, os adultos nunca aprendem.

Uma Carta para as Crianças da Bósnia | Edin Džeko | The Players’ Tribune | Copa do Mundo 2026
Kevin Weaver/Hulton Archive/Getty Images

Eu tinha quase 10 anos quando o cerco acabou. Eu não tinha planos de ser jogador de futebol. 

Parecia algo tão impossível que eu nem mesmo sonhava com isso. Sabe, tudo estava destruído. Os campos de grama que vocês veem hoje tinham sido queimados até virarem cinzas. Eu só continuei jogando futebol porque amava. Meu pai me levava para um pequeno ginásio de esportes de uma escola, onde treinei nos primeiros meses. Finalmente, limparam o terreno e começaram a pintar linhas brancas naqueles campos de terra queimada.

O trabalho do meu pai naquela época era entregar bolos e pães, mas quando entrei no meu primeiro clube, ele dava umas pausas no trabalho para me levar aos treinos. No caminho, ele me dizia para ser gentil e tratar todos da mesma forma, não importa de onde fossem ou o que fizessem. Nunca me esqueci disso. Ele tinha sido jogador em divisões inferiores e era o meu herói. Sempre que eu saía do carro, ele me entregava uma banana e dizia: "Boa sorte, filho".

Nos fins de semana, víamos futebol na televisão juntos. (O que era uma rara trégua das novelas mexicanas diárias que eu assistia com a minha mãe.) Naquela época, o Campeonato Italiano era a melhor liga do mundo. Vocês já ouviram falar do Shevchenko, o atacante do Milan? Eu adorava o "Sheva". Eu amava a Itália. Para mim, parecia uma terra de conto de fadas do outro lado do mundo. Jogar futebol lá era algo que eu nem conseguia imaginar. Parecia irreal demais. Tudo o que eu esperava era jogar no time principal do meu clube, o Željezničar. Um dos meus treinadores lá, inclusive, começou a me chamar de Sheva, porque eu era loiro e fazia muitos gols. Eu pensava: ‘Hum, tá bom, vou aceitar’.

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Cortesia da Família Džeko

Aí, um dia, quando eu tinha 19 anos, outro treinador apareceu e disse que queria me levar para a República Tcheca. Eu não queria deixar a Bósnia, mas ele me disse que eu teria uma chance melhor de realizar meu sonho lá. Para ser sincero, eu nem sabia qual era o meu sonho. Eu só queria evoluir. Eu tinha essa crença em mim mesmo. A parte mais forte do meu corpo era a minha mente. Quando cheguei ao Teplice, disse a mim mesmo: ‘Edin, você tem que ralar mais do que esses caras, senão eles vão te mandar embora’.

Eles tinham me comprado por 25 mil euros.

Cerca de dois anos depois, assinei com o Wolfsburg. Quando jogamos contra o Milan, troquei a camisa com o Sheva.

Depois, o Manchester City me contratou por 37 milhões.

Depois, fui para a Roma.

Eu cresci na guerra. De repente, estava vivendo um conto de fadas.

Nada é impossível.

Nem mesmo levar a Bósnia para a Copa do Mundo.

Uma Carta para as Crianças da Bósnia | Edin Džeko | The Players’ Tribune | Copa do Mundo 2026
Elvis Barukcic/AFP via Getty Image

Vocês se lembram de 2014? A maioria de vocês provavelmente nem tinha nascido. Mas quando nos classificamos para a nossa primeira Copa do Mundo, foi o dia mais feliz das nossas vidas.

Lembro que jogamos a partida decisiva das Eliminatórias em um estádio antigo na Lituânia e, quando o árbitro apitou o fim do jogo, um monte de bósnios começou a pular os muros para invadir o campo. Mas os muros tinham uns dois metros de altura, e eles tinham que pular direto no concreto. Lembro de me virar para trás, ver todos eles correndo em nossa direção e pensar: ‘Meu Deus, esses caras são loucos’.

E então vi um cara correndo um pouco mais devagar que o resto. Ele vinha mancando na minha direção, com lágrimas nos olhos.

Era o meu pai.

Eu disse: "Pai, o que aconteceu?"

Ele respondeu: "Machuquei o pé na queda. Mas não se preocupe. Agora, não estou sentindo dor nenhuma!"

Nós apenas nos abraçamos e choramos.

Infelizmente, a sorte não estava do nosso lado no Brasil. Vocês não vão se lembrar disso, mas marquei um gol contra a Nigéria que deveria ter valido, só que não tinha VAR naquela época, e acabamos eliminados na fase de grupos. Mas pelo menos o nosso pequeno país pôde jogar no Maracanã. Pelo menos mostramos ao mundo quem somos.

E agora estamos de volta.

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Harry Murphy /UEFA via Getty Images

Sabe o que é engraçado? Completei 40 anos em março e ainda não comemorei. Sou muçulmano, era a época do Ramadã, e depois tínhamos compromissos sérios para resolver contra o País de Gales e a Itália. Então pensei: ‘Beleza, vou fazer DISSO a minha festa’.

Lembro de quando estávamos perdendo por 1 a 0 para o País de Gales e olhei para o placar.

85:00

Pânico.

O tempo está acabando.

Aí conseguimos um escanteio, e um cara baixinho veio me marcar. Eu pensei: ‘Opa, perfeito!’ . Desviei a bola para o fundo da rede e, enquanto estava comemorando, lembrei que tinha disputado quatro decisões por pênaltis na minha carreira. Tinha perdido todas.

Felizmente, os nossos garotos sabem como cobrar pênaltis. Eles não ficam pensando demais como nós, os veteranos.

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Robbie Jay Barratt/AMA viaGetty Images

Quando jogamos contra a Itália em Zenica, eu estava com muito medo do Donnarumma. Ele é gigante, sabe? Sinceramente, não sei se teria feito um gol nele na disputa de pênaltis, mas acabei machucando o ombro direito no último minuto da prorrogação e tive que sair. Na verdade eu não assisti ao nosso primeiro pênalti, porque o médico ainda estava enfaixando o meu braço contra o peito. Eu estava sentado no banco e a comissão técnica inteira estava bloqueando a minha visão. Quando a bola entrou, ouvi o rugido da torcida e pensei...

Sabe de uma coisa? Talvez seja sorte. Não vou olhar. Não consigo olhar. Deixa eu só ouvir a torcida. Deixa eu ouvir o meu povo.

Aí a Itália errou. O barulho foi ensurdecedor.

Quando eles erraram outro, o som foi uma loucura. Eu só rezava e rezava. Tudo o que eu conseguia ver eram as costas dos nossos treinadores.

Então, quando o Esmir caminhou para bater o pênalti decisivo, o nosso técnico se virou e disse: "Eu também não consigo olhar".

Ele veio até mim e me deu um abraço de urso apertado. Juntamos as cabeças, fechamos os olhos e apenas ouvimos……..

E então escutamos o som mais estranho do mundo.

Ouvimos o chute do Esmir na bola.

A torcida fez: "Ahhhhhhh..."

O Gigi encostou o dedo nela.

A torcida fez: "Ohhhhhh..."

O estádio ficou em silêncio por um instante. Foi o milésimo de segundo mais longo da minha vida.

E depois…….... uma explosão.

Gritos, sinalizadores, fumaça e fogos de artifício. Pessoas pulando para todos os lados. Nosso banco inteiro correu para o campo. Abracei meu treinador ainda mais forte, olhei para o céu e soltei o maior grito da minha vida.

"AAAAAAAAAAAAAAHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH!!!!!!!!!!!!!!!!!!"

Fiquei assim por uns 20 segundos.

O nosso pequeno país estava indo para a Copa do Mundo de novo.

Uma Carta para as Crianças da Bósnia | Edin Džeko | The Players’ Tribune | Copa do Mundo 2026
Image Photo Agency/Getty Images

Chegar até aqui nunca foi fácil. E continua não sendo quando você tem 40 anos, suas costas estão travadas na manhã seguinte e você precisa recorrer aos analgésicos outra vez. Mas toda vez que meu corpo quer desistir, lembro de todas as festas que perdi, de todos os meses que passei longe da minha família, de todas as férias de verão que dediquei a torneios enquanto meus amigos viajavam para tomar coquetéis na praia. Mentalmente, é muito difícil. As críticas ainda machucam. Mas quando entro em campo, ainda me sinto como um menino, como um de vocês, com frio na barriga e os olhos brilhando.

E todas as vezes, chego à mesma conclusão.

Vale a pena.

Cada segundo.

Sem os momentos ruins, os bons nunca chegam.

Depois de vencermos a Itália, fui falar com alguns amigos, alguns dos caras com quem joguei junto na Itália. Depois fui procurar minha família na arquibancada. Beijei minha esposa. Abracei meus pais. Sem eles, nada disso teria acontecido.

Uma Carta para as Crianças da Bósnia | Edin Džeko | The Players’ Tribune | Copa do Mundo 2026
Cortesia da Família Džeko

Naquela noite, simplesmente estar em Zenica foi incrível. Quanto mais tempo passo longe da Bósnia, mais eu a amo. Já faz 20 anos agora. Nove deles na Itália. Meus filhos nasceram em Roma. Ainda é minha segunda casa. Mas toda vez que visito meus pais em Sarajevo, e minha mãe está cozinhando, e todo mundo está reunido, fico feliz demais. Quando visto essa camisa, meu coração bate de um jeito diferente.

Estou jogando pelo meu povo. Estou jogando pelos meninos e meninas nas ruas de Sarajevo. Estou jogando por todas as diferentes culturas e religiões que tornam o nosso país tão lindo, mesmo que algumas pessoas ainda tentem nos separar.

Eles nunca vão conseguir.

Não por minha causa. Não por causa dos adultos. Nós nunca aprendemos. É por causa de vocês, crianças... Vocês nunca mudam.

Então me façam um último favor, combinado?

Não importa se vocês moram em Sarajevo, em Roma ou em St. Louis... Não importa se são muçulmanos, judeus, católicos ou ortodoxos...

Nunca se esqueçam de onde vocês vieram.

Vocês são bósnios. O mundo está aos seus pés.

Amo todos vocês.

Com carinho,

— Edin

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