Querida Roxane

Ulrik Pedersen/NurPhoto via Getty Images

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Querida Roxane,

Lembra de quando alguém me comprou uma camisa falsificada do United, e eu escrevi "Ronaldo 7" nas costas com uma canetinha preta?

A gente não sabia o que era ser rico ou pobre. A gente só conhecia a felicidade.

Lembra das 25 pessoas dormindo na mesma casa lá em Abidjan? A mamãe queria ver as novelas dela. Todo o resto queria ver filmes. Lembra de como eu sempre fingia que estava dormindo e depois ia para a sala de TV depois da meia-noite? Eu deixava a TV bem baixinha. Só umas 2 barrinhas de volume. Eu assistia ao futebol no escuro e ficava sonhando.

Lembra de quando os adultos me viram jogando futebol no terrão e me deram o apelido de "Roberto Carlos" por causa do jeito forte que eu chutava? E lembra de como eu ficava secretamente bravo com isso, porque o CR7 era o meu ídolo?

Lembra de quando eu fui jogar super longe de casa? Eu tinha 9 anos. No Inter Foot Sud Comoé, lá perto da fronteira com Gana. Só um garotinho sozinho. Não sei se alguma vez te contei essa história, mas eu e os outros meninos costumávamos ir até a vila e roubar batatas porque tínhamos muita fome. A gente fazia um "assalto ao banco". Dois meninos distraíam o dono da loja, e outros 18 saíam correndo com duas batatas. Elas nem eram boas. Mas o gosto era incrível. Hahahah. Ainda é a minha comida favorita. Batata cozida com um pouco de azeite. Me faz lembrar daquela época.

Lembra de quando ganhei minhas primeiras chuteiras de verdade e costumava dormir com elas? Crescendo, eu sempre jogava com aquelas sandálias de plástico brancas. Mesmo quando volto para casa hoje em dia, ainda jogo com elas. É a nossa tradição.

Lembra de quando eu voltava para casa e você dizia para os meus amigos do bairro: "Por que vocês pararam de treinar? O Yan não vai comprar carros para vocês. Vocês têm que continuar trabalhando". 

Você tinha 10 anos e já era a minha empresária.

Querida Roxane | Yan Diomande | Costa do Marfim | RB Leipzig | Copa do Mundo 2026
Cortesia da Família Diomande

Lembra de como a gente costumava sentar e sonhar em se mudar para a França? Como a gente ia fazer compras, ter o nosso próprio apartamento, e eu seria um jogador de futebol rico, com carros e uma casa grande, e você não teria que se preocupar com nada. Você era a única que sempre acreditava que eu poderia ser o próximo Cristiano, quando todo mundo dava risada.

Lembra de quando me mudei para os Estados Unidos para fazer o ensino médio aos 15 anos e sentia tanta saudade de casa? Eu não entendia nada do que as pessoas falavam por meses. Eles me colocaram para sentar ao lado de um garoto francês, e ele tentava traduzir tudo o que o professor dizia. Lembra de quando eu te liguei dizendo: "Você não vai acreditar, as crianças aqui discutem com os professores.”

Lá em casa, você sabe que a gente não ousaria nem piscar para os mais velhos.

Lembra de quando eu não conseguia acreditar que os jovens fumavam depois da escola?

Você dizia que parecia que eu estava em uma série de TV americana.

Lembra de quando me levaram para fazer um teste no Bournemouth? No Chelsea, Rangers, Olympiacos, Crystal Palace? O Eze e o Olise até vieram falar comigo depois de um treino e disseram: "Aí, garoto, você é muito bom".

Mas mesmo assim eles não me contrataram.

Nem os times B da MLS me queriam. Eu nem sabia o porquê. Nunca me deram um motivo. Os adultos resolviam tudo. Eles só continuavam me levando por toda a Europa, e todo mundo continuava dizendo não.

Meu visto venceu. Meu sonho tinha acabado. Eles me mandaram de volta para a África, e nós choramos juntos.

Você foi a única que nunca parou de acreditar. Algumas semanas depois, assinei com o Leganés e choramos lágrimas diferentes.

Isso foi na época em que eu costumava ter emoções. Agora, não sinto nada. É como se eu nem fosse humano. Desde que você morreu, sinto apenas um vazio.

Querida Roxane | Yan Diomande | Costa do Marfim | RB Leipzig | Copa do Mundo 2026
Ulrik Pedersen/NurPhoto via Getty Images

Acho que nem derramei uma lágrima no dia em que me disseram que você tinha partido. Eu estava apenas em choque.

Foi algumas semanas depois de eu estrear pelo Leganés. Quem estreia aos 18 anos contra o Real Madrid? Era loucura demais. Era um sonho.

E então, virou um pesadelo. Alguém não parava de me ligar lá de casa. Eu estava irritado. Não entendia por que continuavam me ligando.

Eu atendi, e eles nem tentaram suavizar. Você sabe como é lá em casa. Sem emoções. Apenas…

"Sua irmã se foi."

"O quê?"

"Ela morreu."

"Do que você está falando?"

"Colocaram alguma coisa na bebida dela em uma festa, e ela nunca mais acordou. Ela se foi."

Você tinha 15 anos.

15.

Querida Roxane | Yan Diomande | Costa do Marfim | RB Leipzig | Copa do Mundo 2026
Cortesia da Família Diomande

Eu nunca tive respostas. Não sei se quero saber o porquê. Talvez tenha sido inveja. Talvez seja apenas algo que acontece no nosso país. Talvez eu pudesse ter te protegido. Não sei.

Tento confiar no plano de Deus. É tudo o que eu posso fazer. Não tento esquecer, porque sei que não vou esquecer. Tudo o que posso fazer é usar a dor para trabalhar ainda mais e realizar tudo o que sonhamos.

Escrevi isso porque não consigo falar sobre o assunto. Escrevi isso porque quero que você saiba que vou garantir que você continue vivendo. Vou garantir que todo mundo saiba o seu nome. O mundo inteiro.

Tudo o que faço em um campo de futebol é por você.

Tanta coisa aconteceu desde a última vez que te vi... Você nem acreditaria. Não sei se eu mesmo acredito.

Sabe o que é louco? Depois da minha estreia contra o Madrid, eu troquei de camisa com o Mbappé. Lembra de quando a gente assistia a ele na TV e você dizia: "Mbappé? É, ele é bom. Mas meu irmão é melhor."

Eu estava errado sobre uma coisa. Eu não quero ser rico. Eu vejo o que isso faz com as pessoas, até com a família. Quando eu estava no Leganés, tudo o que eu ganhava, eu mandava para casa. Chegou ao ponto de eu nem querer mais dinheiro. Era apenas um fardo. Eles nunca paravam de pedir. Acho que pensavam que eu já era milionário. Eu nem tinha um apartamento. Morava no centro de treinamento, em um quarto sem TV. Só futebol e dormir, futebol e dormir.

Eu não queria uma casa grande. Eu não queria carros. Só queria entregar tudo de mim ao futebol. Tudo para mostrar ao mundo que a minha irmã estava certa…

Querida Roxane | Yan Diomande | Costa do Marfim | RB Leipzig | Copa do Mundo 2026
Aitor Alcalde/Getty Images

Ha... você vai achar isso engraçado.

Quando me mudei para jogar no RB Leipzig, eu estava sempre atrasado. Bem, não atrasado. Mas eu chegava no horário, o que na Alemanha significa que você está muito atrasado.

Então você já sabe o que eu fiz depois. Comecei a chegar 90 minutos mais cedo para tudo. Eu chegava tão cedo o tempo todo que os caras começaram a me chamar de "O Alemão".

Eu sempre tenho que exagerar em tudo. Não consigo relaxar. Você sempre dizia isso.

O campo é o único lugar onde me sinto em casa. É o lugar onde me sinto calmo e posso falar com você. Eu só queria que você ainda estivesse aqui para eu poder te dizer... Nós conseguimos.

Tudo o que você disse se tornou realidade.

Estamos partindo para a Copa do Mundo amanhã. É sério. Seu irmão vai jogar pela Costa do Marfim, como o Drogba, como o Yaya, como o Gervinho.

Eu nem encaro isso como um jogo. Encaro como um palco. Esta é a minha chance de mostrar ao mundo inteiro o que você viu em mim. Sempre que eu marcar um gol, vou garantir que todos saibam o seu nome. Vou garantir que não se esqueçam de você.

Você sempre disse que eu poderia ser melhor que o Cristiano. Se eu o vir por lá, vou falar oi para ele por você.

Vou fazer o que você previu, eu juro. Antes mesmo de eu ter chuteiras de verdade, você já dizia para todo mundo: "Meu irmão vai ser o melhor do mundo".

Vou provar que você estava certa, ou vou morrer tentando.

Do seu irmão,

Yan

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