Uma História Louca

Michal Cizek / AFP via Getty Images

To read in English, click here.

Estamos num café em Braga, a comer panquecas com iogurte.

Eu e um amigo. É 2018. Jogo no Porto, mas nesse dia estou a relaxar na minha cidade natal, no norte de Portugal. É primavera, o sol brilha lá fora. Estou prestes a dar mais uma garfada na panqueca quando o meu amigo se inclina sobre a mesa e diz “Ouve... vais receber uma chamada.”

Eu fico, “Alguém?”

“Vais passar-te.”

“O quê? Quem???”

“Mourinho.”

“Cala-te.”

O meu amigo trabalhava, na altura, com o meu agente. Eu tinha 19 anos e tinha acabado de chegar à equipa principal do Porto. Até então, tínhamos falado com presidentes de outros clubes, mas nunca diretamente com um treinador. Pouco depois, o telemóvel dele toca e ele passa-mo. Pego nele e corro para o outro lado da estrada. Quando atendo, é mesmo ele. José Mourinho.

E está a dizer exatamente tudo aquilo que eu queria ouvir. Que tenho talento. Que sou forte. “Só precisava de um teste,” diz ele. Tinha estado a analisar-me quando o Porto jogou com o Liverpool em Anfield algumas semanas antes, porque eu estava a marcar o Sadio Mané.

“Paraste o melhor extremo do mundo. Agora vem jogar para mim.”

Desligo a chamada e vejo o meu amigo a olhar para mim através da janela do café, com uma expressão de:  COMO É QUE CORREU? Abro a mão e levanto-a em direção ao céu, como um avião a descolar da pista.

Vamos levantar voo, meu irmão.

Vamos para o Manchester United.

Dalot
| Ash Donelon/Manchester United via Getty Images

Alguns dias depois, dizem-me que preciso de ser operado. 

Tinha tido um problema no joelho direito durante um treino e, depois de fazer uma ressonância magnética, o médico disse-me que iria parar durante cinco meses. Menisco lateral. A minha primeira lesão grave. Inacreditável.Logo quando entro no carro para regressar a casa, o meu agente liga-me.

Eu disse: “Tenho de ser operado. Acabou tudo.”

Silêncio.

“Estou?”

Ele responde: “Nem sei como te dizer isto, mas está tudo pronto. A documentação está tratada. O diretor deles vai a tua casa. Só tens de assinar.”

“E agora? Ainda me vão contratar?”

“Não sei.”

Conhecem a música Paranoid, do Post Malone? Eu sei a letra toda. Quando conduzo de volta para Braga, ponho-a em repetição. Estou a falar a sério: foi a pior viagem da minha vida. Tinha a certeza absoluta de que a transferência tinha caído por terra. Quando chego a casa, envio uma mensagem ao Mourinho a explicar a cirurgia. Ficamos à espera da resposta. Eu, o meu pai, a minha mãe e o meu agente. Sentados em silêncio.

O meu pai pergunta constantemente: “Há novidades??”

“Nada.”

Estou a suar. Estou a tremer.

Finalmente… 

PING! 

Toda a gente olha para mim. Eu olho para o telemóvel.

De: José Mourinho

"Diogo, não me importo com a lesão. Vais estar parado cinco meses. Estou a contratar-te para os próximos dez anos."

Não conseguem imaginar as lágrimas que me saíram do corpo. A minha mãe estava a chorar. O meu pai desfez-se em lágrimas como eu nunca o tinha visto. Até o meu agente estava emocionado. Dez segundos antes, estava a viver o pior dia da minha vida.

E depois o Mourinho viu em mim algo que nem eu próprio conseguia ver.

Dalot
John Peters/Manchester United via Getty Images

Alguns meses depois, estávamos prestes a jogar fora contra o Young Boys, para a Liga dos Campeões. Eu já tinha feito alguns jogos pela equipa de sub-23 e treinado com a equipa principal, tentando recuperar a forma física, mas não fazia ideia de quando iria surgir a minha primeira oportunidade. No dia anterior ao jogo, o Mourinho aproxima-se de mim.

[Agora têm de imaginar a voz dele.]

Diz: “Os meus adjuntos dizem-me que não estás pronto..”

Eu respondo:“Mas porquê? Tenho treinado tão bem. Mister, estou pronto!”

Ele diz:“Eu sei. É por isso que vais ser titular. Mas toda a equipa técnica acha que ainda não estás preparado para jogar.”

E, pá, fiquei furioso. Lancei um daqueles olhares feios para a equipa técnica. É engraçado porque o Michael Carrick era um dos treinadores na altura. Comecei logo a motivar-me ainda mais. Até mandei mensagem ao meu pai: “Como assim, acham que não estou pronto? Quem é que eles pensam que são?! Nem me conhecem!!”

No dia seguinte, fiz provavelmente o jogo da minha vida. Ganhámos por 3-0.

Depois da partida, o Mourinho apertou-me a mão, piscou-me o olho e sussurrou-me ao ouvido: “Eu sabia que estavas pronto.”

Acham que a equipa técnica disse alguma coisa?

A minha aposta é… Nem uma palavra.

Dalot
Matthew Peters/Manchester United via Getty Images

Três meses depois, em dezembro de 2018, o Mourinho foi despedido.Fiquei mesmo triste, porque ele acreditava profundamente em mim e já tínhamos criado uma ligação emocional. Pouco depois tivemos um novo treinador. No verão seguinte, tivemos um novo lateral-direito.

Na época seguinte, acho que fiz apenas 10 jogos em todas as competições.

Dez.

“Dalot continua afastado devido a lesão.”

“Dalot começa hoje no banco.”

“Dalot fica fora dos convocados.”

Sentia vergonha de estar na bancada. Muitas vezes assistíamos ao jogo no camarote presidencial e os adeptos que estavam mesmo ao lado perguntavam-me: “Porque é que não estás a jogar?” 

Nem sabia o que responder. Não estava lesionado. Simplesmente não era escolhido. Sentia-me tão envergonhado que comecei a descer para o balneário para ver os jogos sozinho na televisão. A minha mãe tinha vindo viver comigo para Inglaterra, mas quando chegava a casa mal dizia "olá". Descia para a cave, ligava a PlayStation, punha Paranoid a tocar em repetição e começava a pensar.

Eu jogava no Porto. Eu era considerado um dos grandes talentos. Agora nem sequer estou no banco. Estou a desperdiçar os meus anos.

Estou a perder tempo.

O que é que estou aqui a fazer?

Dalot
Michael Regan/Getty Images

Por vezes, um treinador procura simplesmente um perfil diferente, mas eu achava que a culpa era toda minha. Se não estava a jogar, tinha de fazer mais. Comecei a treinar como um louco.

Logo na pré-época, verificava os dados físicos depois de cada sessão para garantir que era o mais rápido. No ginásio, alguns dos recordes ainda hoje são meus. Sabem quando estão num avião sem Wi-Fi e ficam apenas a percorrer fotografias e vídeos no telemóvel? Eu ainda tenho mais de 200 vídeos meus a treinar. Via-os em casa porque não tinha imagens de jogos para me motivar. Ao fim de um mês, o meu corpo simplesmente cedeu.

Lesão na anca. Seis semanas de fora.

E sim, já sei o que estão a pensar.

"Diogo, porque é que não conseguiste simplesmente abrandar um pouco?"

Sinceramente, gostava de ter conseguido. Mas têm de perceber a forma como fui criado.

Courtesy of the Dalot Family
Courtesy of the Dalot Family

Venho de uma família que faz tudo o que está ao seu alcance para dar o melhor de si. A minha irmã é música profissional. A minha mãe é professora. O meu pai é advogado. É educado e civilizado... até ver um jogo do Porto. A mãe dele não o deixou seguir uma carreira no futebol, por isso acabou por passar esse sonho para mim. Ao sábado, acordava-me logo de manhã: “Diogo! Diogo! Hoje há jogo!” Pouco depois, lá estava eu sentado à mesa da cozinha, a olhar para um prato de ovos mexidos, um copo de sumo de laranja natural e uma enorme taça de massa. Pesava quase metade do meu peso. Olhava para o relógio.

07h58

[Hidratos para o jogo. Come, filho.]

Eu tinha seis anos.

O sonho dele era ver-me jogar no Porto. Mas, cerca de dois anos depois, fui fazer testes ao Benfica. Treinámos ao lado do Estádio da Luz e, quando apareci vestido de vermelho, o meu pai parecia fisicamente doente. Eles queriam ficar comigo. Mas depois o Porto ligou, “Vem para cá” 

O meu sonho concretizou-se. E o dele também.

Por essa altura, os meus pais queriam que eu entrasse numa conhecida escola de música. Fiz uma prova de admissão em que era preciso acertar em 90 perguntas de um total de 100.

Pergunta: Que animal faz miauuuuu?

A minha resposta: cão.

Pergunta: Que instrumento é este?

*Som de bateria*

Resposta: guitarra.

RESULTADO FINAL: 3/100

Eu só queria jogar futebol. Mas nunca fui o jogador mais talentoso da equipa. Sempre senti que tinha de trabalhar mais do que todos os outros. O Porto tinha um programa para os chamados "jovens de elite", em que escolhiam dois jogadores de cada escalão para treinarem juntos. De três em três meses escolhiam novos atletas. Passei uma década no Porto. Sabem quantas vezes fui escolhido?

Zero. 

O meu pai não conseguia perceber. Viajava para assistir aos meus jogos de formação no Porto, em Itália, Espanha, França... por todo o lado. A única deslocação que falhou foi à Rússia. Depois dos jogos dizia-me: “Foste o melhor em campo.”

“Mas pai, deixei escapar o extremo quando estava 2-0.”

“Filho, estiveste muito bem. Estes treinadores não percebem nada disto.”

Houve uma vez em que tive de apanhar o autocarro da equipa a meio do percurso para o estádio por causa de um exame. O clube tinha autorizado. Mas o treinador usou isso como justificação para eu não jogar um único minuto. Quando contei ao meu pai no caminho para casa, ele travou de repente na autoestrada.

Dos cem aos zero em dois segundos.

Fez inversão de marcha e carregou no acelerador. Olhos esbugalhados. Sem dizer uma palavra. Ia voltar para confrontar o treinador.

“Pai, por favor...”

Quando chegámos lá, olhei para o céu e agradeci.

Graças a Deus, o autocarro já tinha ido embora.

Courtesy of the Dalot Family
Courtesy of the Dalot Family

Um dia, quando tinha 12 anos, estava a ir para o Porto com um colega de equipa e o pai dele. Vivíamos em Braga e eles deram-me boleia para o treino. Dois minutos depois de entrarmos na autoestrada... BOOM. Um acidente brutal.

O carro capotou e ficou virado ao contrário.

Antes sequer de perceber o que estava a acontecer, o mundo estava de pernas para o ar. Vidros partidos por todo o lado. Eu estava preso no banco de trás. Desapertei o cinto. Saí pela janela traseira. E corri o mais depressa que consegui.

Via-se fumo a sair do carro, mas, felizmente, todos conseguimos sair com vida. Quando os meus pais chegaram ao local, a minha mãe estava a chorar. Depois vi o meu pai. E sabem qual foi a primeira coisa que lhe disse?

Juro por tudo que estas foram as minhas palavras.

“Pai, vá lá, tens de me levar.”

Ele respondeu: “Sim, filho. Vamos para o hospital. Não te preocupes, vais ficar bem.”

E eu:“Hospital? Do que é que estás a falar? Leva-me ao Porto.”

Ele ficou a olhar para mim, a tentar perceber. 

Ao hospital do Porto?”

“Não. Se eu faltar ao treino, amanhã não vou ser convocado.”

Mesmo depois de ter escapado por pouco à morte, eu só pensava em futebol.

A minha mãe estava em pânico. O meu colega e o pai dele voltaram para Braga. Mas o meu pai levou-me ao Porto. Nessa mesma noite fiquei a dormir em casa de um amigo. A certa altura ouvimos um barulho vindo da sala. A mãe dele tinha desfeito a minha mala e vários pedaços de vidro partido caíram para o chão.

Agora percebem porque trabalho tanto?

Não é algo que eu consiga desligar. É a minha configuração de origem. É quem eu sou.

Mas, para ser totalmente sincero, hoje sinto-me grato por todas as dificuldades que vivi na minha segunda época no United. Foi aí que aprendi que a tua base é o treino. Ao fim de semana, ser escolhido ou não nem sempre depende de ti. Mas o treino de segunda-feira?

Esse era o meu jogo.

Dalot
Zohaib Alam/Manchester United via Getty Images

Eu encarava-o como se fosse uma partida da Premier League. Quando os habituais titulares estavam cansados, eu estava a 100%. Nos exercícios de cinco contra cinco, aparecia em todo o lado. Descarregava ali toda a minha frustração. Era a minha forma de dar um murro na parede. Até comecei a praticar livres. Claro que sabia que nunca os iria marcar num jogo, mas eu e o Bruno ficávamos depois dos treinos a alinhar bolas.

Pum! Pum! Pum! Passados alguns meses, parecia o Beckham. Juro. Ainda tenho os vídeos.

“Ah, sim... o Nesta costumava sentar-se aqui.”

“O Ronaldinho adorava aquela marquesa de massagens ali.”

Sabem quando certos estádios são antigos e parecem cansados? O San Siro continua a ser especial. Eu gosto de lhe chamar clássico. E o mesmo acontece com o Milan.

Independentemente do que diga a classificação, este clube nunca passa de moda.

Conseguiríamos voltar à Liga dos Campeões pela primeira vez em oito anos se vencêssemos a Atalanta fora de casa. Era maio de 2021, milhares de adeptos apareceram no centro de treinos antes do jogo. Uns tipos tatuados, com megafones, aproximaram-se dos jogadores e disseram: “Este é um dos dias mais importantes da nossa história. Estamos convosco. Não nos desiludam.”

Olhei para a minha direita e vi o Maldini. Na altura era diretor. HPodia passar os dias no gabinete, a beber cafés e a ser simplesmente Paolo Maldini. Mas digo-vos uma coisa. Todos os dias. Com sol. Com chuva. Com frio. Ele estava lá a ver-nos treinar. Sempre de fato vestido, à italiana. Lembro-me de uma vez em que me chamou à parte. Pensei que me fosse dar algum conselho técnico. “Marca assim.” “Desarma desta forma.” Ou então podia ter sido aquele tipo de pessoa que diz: “Este é o meu clube. Ganhei tudo aqui. Portanto façam isto e aquilo..” Mas não. Ele preocupava-se sobretudo com o lado mental.

“Diogo, estás a esforçar-te demasiado. Tem calma. És um excelente jogador. Vai correr tudo bem.”

Quando o Maldini acredita em ti, como é que não vais acreditar em ti próprio?

Dalot
Jonathan Moscrop/Getty Images

Nessa época joguei à direita, joguei à esquerda, estive no banco... vivi um pouco de tudo. Era o período da COVID, por isso dava perfeitamente para ouvir o Mister Pioli a gritar o meu nome na televisão de cinco em cinco segundos. (E, na maior parte das vezes, ele tinha razão. Terei sempre um enorme respeito pelo Mister Pioli.) Também aprendi muito com o Zlatan. Podia estar cinco semanas parado por causa de uma lesão complicada e, no primeiro treino de regresso, já estava a entrar com tudo nos duelos e a distribuir pancada. Tinha 40 anos.

“Não venhas para aqui estragar o meu treino.”

Se desses apenas 99%, estavas tramado.

O Milan fez-me voltar a sentir jogador de futebol. Depois de garantirmos o regresso à Liga dos Campeões, fui disputar o Europeu de Sub-21, na Hungria e na Eslovénia, onde acabámos por perder a final. Três dias depois, estava estendido numa espreguiçadeira no Dubai com a minha namorada, a Cláudia, a beber cocktails e a comer hambúrgueres. Estávamos prestes a entrar num restaurante quando o telemóvel começou a vibrar no bolso.

Número português desconhecido.

Atendi.

“Diogo, vais ter de voltar para a Hungria. Tivemos uma lesão e o selecionador quer-te cá para o Europeu.”

O verdadeiro Europeu.

Eu nunca tinha jogado pela Seleção principal. Estava muito ansioso.

Pela primeira vez na vida, não me sentia preparado.

Eu e a Cláudia corremos para o aeroporto para fazer um teste à COVID. Dois dias depois, estava presente no nosso jogo de estreia, completamente sem ritmo competitivo. Ouvir o hino foi algo incrível. O Bruno estava lá. O João Félix também, que tinha estado comigo naquele teste no Benfica, muitos anos antes. E depois apercebi-me: Oh wow, Vou conhecer o Cristiano.

Graças a Deus, o meu ídolo revelou-se uma das melhores pessoas que já conheci. Falávamos durante horas. No hotel. No ginásio. À mesa das refeições.

Naquela altura eu gostava tanto do Milan que pensava que talvez fosse possível encontrar uma solução para ficar. Eles queriam muito contratar-me. E eu também tinha reuniões marcadas com outros clubes. Um dia recebi uma mensagem do Cristiano.

“Miúdo, fica. Eu vou voltar para Manchester.”

Disse-me que o United era o melhor clube do mundo. Que voltaríamos ao topo se corrigíssemos apenas algumas coisas. Que me ia ajudar.  E que jogaríamos muitos jogos juntos. Falei com o meu agente. Falei com a Cláudia.

O Mourinho queria que eu ficasse lá durante dez anos. Como é que podíamos sair ao fim de apenas dois?

Dalot
Jan Kruger/UEFA via Getty Images

Foi nessa época ao lado do Cristiano que comecei realmente a crescer como jogador e como pessoa. Perdi a conta ao número de previsões dele que se confirmaram, porque ele sabe exatamente o que é preciso para chegar ao topo. Se alguém saltasse uma série no ginásio, ele reparava. Tivemos um avançado que fez uma excelente primeira época connosco, mas o Cristiano dizia: “Ele não vai conseguir afirmar-se aqui.”

Eu respondia: “Cris, marcou dois golos hoje!”

E ele: “Sim, mas não tinha a fome necessária para procurar o terceiro.”

Quando o teu rival é o Messi, nada é suficiente.

Noutra ocasião, estávamos a almoçar antes de um jogo com o Young Boys para a fase de grupos da Liga dos Campeões e ele disse:“Estou muito nervoso.” O homem já tinha conquistado cinco títulos da competição. Mas queria tanto ganhar o sexto. Achei sinceramente que estava a brincar. Depois olhei para baixo, a perna direita dele estava a tremer debaixo da mesa.

Conseguia processar qualquer situação em três horas. Uma vez ficou no banco no United e simplesmente não conseguiu lidar bem com isso. Estava furioso, a gritar, a dizer palavrões.

Eu perguntei:”Cris, estás bem?”

Ele respondeu: “Dá-me três horas.”

Três horas depois, estava completamente tranquilo.

Disse-me:”Claro que estou zangado. Mas achas que vou deixar que isto estrague o resto do meu dia?”

Ainda hoje, quando nos encontramos na Seleção, ele aproxima-se e diz: “Diogo, estou a experimentar uma coisa nova.” Um dispositivo médico. Um tratamento de recuperação. Uma abordagem mental diferente.

Nós chamamos-lhes mecanismos.

“Então, Cris? Novos mecanismos? O que tens para me mostrar agora?”

Para mim, é completamente absurdo que alguém sequer discuta se ele deve ou não estar num Campeonato do Mundo. Corre como corria aos 22 anos? Não. Marca praticamente um golo por jogo? Sim. Torna todos os que estão à sua volta melhores? Sim. O homem tem 41 anos.. Não precisa de estar ali, a competir ao lado de jogadores que podiam ser seus filhos. Mas continua lá.

E sempre que falas com ele, sais um pouco mais sábio.

Dalot
Hugo Amaral/SOPA/LightRocket via Getty Images

Depois de conhecer o Cristiano, o meu objetivo deixou de ser apenas trabalhar o máximo possível. Passei a querer manter-me no melhor estado possível, tanto mental como fisicamente. E no United, acreditem, o jogo mental é o mais difícil de todos.

Os jogadores chegam aqui a pensar que vão viver a melhor fase das suas vidas. Mas, quando as coisas não correm bem, pode facilmente tornar-se a pior. No início, lês tudo o que escrevem sobre ti porque achas que consegues lidar com isso. Depois só lês quando as coisas estão a correr bem. Mais tarde deixas de ler por completo, porque, se estás a jogar mal, já sabes perfeitamente o que tens de fazer para melhorar. É engraçado porque o meu pai continua a ver todos os jogos. E quando pego no telemóvel depois das partidas, tenho sempre uma série de mensagens dele.

“Bom passe, muito bem.” “Aperta mais a marcação!!!”

No dia seguinte volta a ver o jogo no iPad. Depois pega no telemóvel, grava o ecrã do iPad e envia-me os vídeos. Imagens tremidas.Comentários em direto. E, normalmente, um dedo a tapar um canto do ecrã.

“Boa posição aqui.”

Às vezes concordo. Outras vezes não. Mas uma das coisas que aprendi é que nunca é tão mau como as pessoas cá fora fazem parecer.

“O pior lateral-direito da liga. Não tem qualidade para jogar no Manchester United.”

Eu sei que isso não é verdade.

Se fizeres as coisas da forma certa e trabalhares todos os dias, no final tudo acaba por se resolver. Neste clube, o tempo é o teu melhor amigo.

E os adeptos do United adoram uma história de superação.

Nunca me vou esquecer do jogo com o Wigan, fora de casa, para a Taça de Inglaterra, em 2024. Sabia que ia ser titular porque não tínhamos mais nenhum lateral disponível, mas eu estava doente. No dia anterior ao jogo disse ao médico: “Estou um pouco quente, mas estou bem.” Tinha 40 graus de febre. 

Cheguei cedo ao ginásio, mas acabei por adormecer numa cadeira. Durante o aquecimento parecia um zombie. Mesmo antes de o jogo começar, o Casemiro virou-se para mim e disse: “Diogo, vá lá. O que é que estás aqui a fazer? Vai para casa.”

Dormia durante dez horas seguidas. No dia seguinte marquei um golo. Era janeiro,  estava um frio de rachar, e essa foi a única vez na minha vida em que tive vontade de agradecer a um treinador por me tirar de campo.

Mesmo sendo português, nunca uma chávena de chá me soube tão bem.

Alguns meses depois, estávamos a subir as escadas de Wembley. Olhei para o mar vermelho de adeptos completamente loucos, a cantar e a festejar. E lembro-me de pensar: Quero voltar a sentir isto. Outra vez. E outra. E outra.

Logo depois voei diretamente para o Mónaco com a Cláudia para assistir ao Grande Prémio de Fórmula 1. Na marina, um homem aproximou-se de nós e disse “Obrigado.”

Respondi:”Obrigado porquê?”

Ele disse: “Pela Taça de Inglaterra. Significou muito para mim.”

Se isto é ganhar uma Taça de Inglaterra pelo Manchester United... Imaginem ganhar a Premier League. Imaginem ganhar a Liga dos Campeões.

Penso nisso todos os dias.

Dalot
Justin Setterfield/The FA via Getty Images

Claro que também existe o Campeonato do Mundo. O sonho dos sonhos. Mas este verão será diferente. Não seremos apenas 26 jogadores.

Seremos 26 + 1.

Quando perdemos o Diogo Jota no verão passado, recusei-me a acreditar. Estava a treinar sozinho em Portugal quando peguei no telemóvel e vi umas dez mensagens da Cláudia. Liguei ao Bruno. Enviei mensagens a toda a gente que pudesse saber alguma coisa. Mesmo quando a morte dele foi confirmada, parecia-me demasiado cruel para ser verdade.  Poucas semanas antes tínhamos celebrado juntos a conquista da Liga das Nações. Ainda conseguia vê-lo ao meu lado. A levantar o troféu. A dançar debaixo da chuva de confetes.

Tinha acabado de casar. Tinha três filhos maravilhosos. Aos 28 anos ainda tinha tanto para dar.

Ter sido companheiro de equipa dele foi uma honra. Lembro-me de uma das primeiras vezes em que estávamos juntos no banco da Seleção, simplesmente a ver o jogo. Um lançamento lateral foi assinalado a favor da outra equipa. Do nada, o Diogo levantou-se do banco, correu para junto da linha lateral e começou a protestar com o quarto árbitro.

“Como é que não viste isso? Quando é que nos vais dar alguma coisa? Vá lá!!!"

Digo-vos, estava mesmo a massacrá-lo.

“Ele tocou claramente na bola!! Eu vi daqui do banco!!”

Ah... e esqueci-me de referir um detalhe, era apenas um jogo amigável.

Quando voltou a sentar-se, fiquei quase preocupado.

“Diogo… estás bem?”

Sabem o que ele fez?

Virou-se para mim e sorriu.

“Claro que estou. É preciso pressionar o árbitro.”

😉

Isso era o Diogo numa única imagem. Todos nós sabíamos que ele merecia ter jogado mais vezes pela Seleção, mas mesmo quando estava no banco era suficientemente humilde para ajudar a equipa. Ele até sabia os nomes dos árbitros.

“Então, Mike, como estão os miúdos? Tudo bem? Já agora, aquela bola era nossa. Ficaste a dever-nos uma.”

Dalot
Justin Setterfield/The FA via Getty Images

Já ouvi jogadores no banco desejarem que a equipa perdesse, porque isso podia significar mais oportunidades para eles jogarem. O Diogo tirava o melhor de qualquer situação. Nos treinos, gostava de receber bolas difíceis. O Bruno fazia-lhe um passe perfeito, direitinho ao pé preferido.

O Diogo rematava… e lá ia um apanha-bolas procurar a bola aos arbustos.

“Bruno, outra! Com ressalto! Para o pé esquerdo!”

Chegava uma bola alta para o seu lado mais fraco, ligeiramente atrasada.

PUM!

Diretamente para o ângulo.

Gooooooooolo.

Uma celebração divertida. Um sorriso enorme.

Era assim o Diogo Jota.

Quando o caixão saiu da igreja e vi o sofrimento da mulher dele, o meu coração partiu-se em mil pedaços. No autocarro da Seleção, o Diogo sentava-se sempre ao lado do Rúben Neves, o melhor amigo dele na equipa. Mas na fase seguinte, aquele lugar estava vazio. O Rúben estava sentado sozinho, e via-se que não sabia como lidar com aquilo. Nenhum de nós sabia.

Acho que tudo o que podemos fazer é perseguir o sonho dele. Ele queria desesperadamente ver Portugal tornar-se campeão do mundo. Não vamos lutar apenas pelo nosso país.

Vamos lutar pelo Diogo.

Dalot
Diogo Cardoso/DeFodi Images via Getty Images

Nas semanas que se seguiram à sua morte, apercebi-me da sorte que tenho. A sorte de estar vivo. De representar um clube tão grande. De representar o meu país. De ainda ter as pessoas que amo ao meu lado. No ano passado casei-me com a Cláudia, o amor da minha vida. Ela está ao meu lado desde a primeira vez que a vi numa discoteca em Braga, quando tinha 18 anos. Temos uma filha, a Clara, que tem dois anos e, em março, demos as boas-vindas ao Tomás.

Claro que nada é perfeito. Em abril, a Clara teve de passar algum tempo no hospital.

Precisaram de lhe tirar sangue.  Levar injeções. Passou por momentos muito difíceis. Para um pai, ver uma filha sofrer daquela forma é extremamente duro.

Sempre que uma enfermeira entrava no quarto, ela levantava-se na cama e dizia:“Não, não, não!” Durante os primeiros cinco dias não deixava que ninguém lhe tocasse sem ser eu. Se os médicos precisavam de lhe medir a temperatura, tinha de ser eu a fazê-lo. Nem sequer podia ser a Cláudia.

Não viajei com a equipa para o estágio na Irlanda. Como pai, queria estar no hospital todas as horas do dia.

Mas, todos os dias, conduzia até Carrington. Treinava sozinho durante duas horas.E depois regressava ao hospital. Quando a equipa voltou da Irlanda, eu estava novamente no treino de sábado. Não sabia se ia ser convocado para o jogo. Mas jogo no Manchester United. Tinha de fazer o meu trabalho. Precisava de saber que tinha feito tudo o que estava ao meu alcance para estar preparado.

Felizmente, a operação correu bem, e, depois disso, a minha filha voltou a querer apenas a mãe, mãe, mãe. Uma semana mais tarde já estava em casa, a ver o pai jogar na televisão. Quando me vê jogar, aponta para o símbolo e diz:“United! United!”

Educámo-la bem.

Dalot
Zohaib Alam/Manchester United via Getty Images

Quando estava sentado naquele café em Braga, há oito anos, nunca poderia imaginar que tudo isto aconteceria. Já fiz quase 250 jogos por este clube. Os períodos difíceis foram mesmo muito difíceis. Houve alturas em que toda a gente criticava o clube. Toda a gente dizia que estava destruído. Que aqui trabalhavam as piores pessoas. Que aqui estavam os piores jogadores. Que o clube era um caos. Quando ouves isso vezes sem conta, sabendo que fazes parte dessa realidade, custa. Dói.

Mas eu sei que este clube está melhor hoje do que quando aqui cheguei. Vejo isso nos bastidores. Vejo isso na forma como as pessoas falam.

Vejo isso na evolução que tivemos esta época.

Este clube vai voltar a ganhar. Sem qualquer dúvida.

Não consigo entrar para treinar todos os dias sem acreditar nisso. Se não acreditas, então este não é o clube certo para ti. Lembro-me disso sempre que entro em Carrington e vejo aquelas enormes letras vermelhas por cima do parque de estacionamento.

MANCHESTER UNITED

Depois caminho pelo corredor e vejo todas aquelas lendas a erguer grandes troféus.

Um dia. 

Em breve.

Tenho a certeza.

Com os melhores cumprimentos,

— Diogo Dalot

FEATURED STORIES

Estou no meio do furacão há muito tempo. Faz 15 anos desde que cheguei à Europa. 15 anos!

Fernandinho

Sempre pensei que a minha vida é feita de capítulos. Então, gostaria de compartilhar alguns deles com vocês.

Júlio César

Alguns dias atrás, acordei na minha cama, me virei e vi algo estranho do meu lado no travesseiro. Sabe quando você acorda de um sono bom e tudo ainda parece um

Robert Lewandowski