Mamá, Esta É Para Você

Edith Geuppert/GES Sportfoto/Getty Images

Para leer en español, haz click aquí.

Pour lire en français, cliquez ici.

Olhar para os pés da minha mãe enquanto ela dançava bachata na nossa sala.

Um dois três, um dois três. 

O calor dela. O aconchego da nossa casa. 

É nisso que eu penso quando quero voltar para casa nos meus sonhos.

Ela sempre escutava Aventura. Acho que era por causa da dor da separação do meu pai. Ele foi embora quando eu nasci. Toda noite, depois de se matar de trabalhar, ela chegava em casa e colocava suas músicas para tocar. 

Acho que eu tinha uns 8 anos. Tudo o que eu queria era dançar com ela. Era a minha missão. 

Infelizmente, eu era um péssimo dançarino. Passei meses olhando para os pés dela, tentando imitá-la. 

Um dois três, um dois três. 

Eu nunca olhava para o rosto dela. Só para os pés. Tentando manter o ritmo.

Um dois três, um dois três.

Droga.

Um dois três, um dois três.

Não sei quanto tempo levei. Talvez um ano. Mas um dia finalmente a ouvi dizer: “Aí sim! Willian, você conseguiu! Você conseguiu!”

Olhei para o rosto dela, e ela estava com um sorriso enorme.

Meu Deus, que lembrança.

Acho que foi assim que eu aprendi a usar os meus pés.

Eu não tinha noção do que era um “jogador de futebol”. Eu apenas jogava. No Equador, naquela época, você não ousava sonhar que alguém te pagaria por isso. Na verdade, meu sonho era ser oficial da Marinha. O marido da minha madrinha apareceu um dia com seu uniforme branco impecável, e fiquei obcecado com aquilo.

“Eles te pagam para navegar? E te dão esse uniforme maneiro? Por favor, me leva com você!!”

Eu sempre amei uniformes. E eu sempre quis ser alguém.

Um dia, alguém quis me inscrever em um time do bairro, e minha mãe disse: “Futebol? É só um passatempo. Como você vai sustentar sua família com futebol?”

Acho que ela nunca se acostumou com isso. Para ela, era só o que eu fazia depois da escola.

Ainda assim, ela sempre me apoiou.

De manhã, ela cuidava de uma barraca de comida perto da escola da minha irmã. Eu ficava muito animado quando ela trazia para casa as empanadas que sobravam no final do dia. Eu era maluco por elas. À noite, ela ganhava um dinheiro extra lavando roupa para algumas pessoas do bairro. Sem máquina de lavar. Apenas as mãos dela e um balde.

E depois havia os porcos.

Morávamos na encosta da montanha em Quinindé, então mantínhamos uma pequena fazenda no quintal. Uma fazenda um pouco "improvisada", se é que você me entende.

Quando os tempos eram difíceis, tínhamos galinhas magras.

Quando os tempos melhoravam, eram porcos.

Acho que a prefeitura tinha alguns problemas com isso, mas minha mãe era uma mulher encantadora. Todo mundo amava ela. Todo Natal, havia uma boa fatia de carne de porco esperando por eles, então eles olhavam para o outro lado.

Willian Pacho | Mamá, Esta É Para Você | Paris Saint-Germain | The Players' Tribune | Equador
Julio Galarza/AFP via Getty Images

E o que os porcos comem? As sobras. Os restos.

Um trabalho sujo.

Bom, adivinha de quem era o trabalho de alimentar os porcos?

“Willian! Ahoritaaaaaaaaaaa!!!!!!!”

Eu sempre ficava jogando futebol na rua, fingindo que não a escutava.

“Willian! Ahoritaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa!!!!!”

Cara, eu testava os limites. Um minuto a mais com a bola era precioso.

“Mãe, tô indo! Tô indo!”

Sabe quando as mães têm aquela frase especial que sempre dizem, e que significa que a coisa é séria?

Ela dizia: “‘Agora’ significa AGORA MESMO!!!”

Esse era o sinal de que eu realmente tinha que ir.

Eu batia na porta de todos os vizinhos, e eles saíam com seus baldes de lixo. Eu ficava com os braços atolados até o cotovelo no arroz, tirando os ossos. Meu Deus, o cheiro também era terrível. Principalmente no verão. Conforme fui ficando um pouco mais velho, era muito vergonhoso, porque eu ouvia as outras crianças zombando de mim. Os adultos podiam ser ainda piores. Eu conseguia ver o sorrisinho de deboche no rosto de alguns. Isso deixa marcas em você.

Todo mês de dezembro, quando os porcos estavam bons e gordos, nós os abatíamos e fazíamos um assado, e todo mundo no bairro ganhava um pedaço. Até aqueles que fecharam as portas. Eu me lembro de perguntar à minha mãe: “Como você pode alimentar quem nem sequer nos ajudava a alimentar a comunidade?”

E ela dizia: “Não deixe isso te aborrecer. Todo mundo ganha uma boa fatia.”

Eu ia entregar essa carne de porco maravilhosa para aqueles que tinham rido na minha cara.

“Feliz Natal da família Pacho.”

Minha mãe tinha o maior coração do mundo. Mas acho que havia uma lição mais profunda que ela estava me ensinando, sabe?

Nós transformávamos restos em um banquete.

Willian Pacho | Mamá, Esta É Para Você | Paris Saint-Germain | The Players' Tribune | Equador
Cortesia de Willian Pacho

Carreguei isso comigo por toda a minha vida.

Quando eu tinha 15 anos, o futebol me levou embora. Fui morar a algumas horas de casa, na academia do Independiente del Valle. Lembro que minha mãe não conseguia entender que alguém daria cama e comida para um adolescente só porque ele era bom de bola. Eu me sentia tão sozinho no começo. Mas conheci meu melhor amigo, Moisés, lá. Ele era meu colega de quarto no dormitório. Quando ficamos um pouco mais velhos, pegamos nosso próprio apartamento juntos para dividir os custos. Tínhamos uma rotina — o Moisés cozinhava e eu lavava a louça. No dia seguinte, a gente trocava. Éramos apenas dois caras comuns tentando vencer na vida, sabe?

Claro que o meu colega de quarto não era um Moisés qualquer. Era o Moisés Caicedo.

Pensar que aqueles dois caras lavando louça estariam jogando a Liga dos Campeões um dia....... Não, impossível.

Nunca vou esquecer quando o Moisés foi convocado para o time principal e começou a ganhar um dinheirinho, ele foi e comprou um Hyundai Sonata. Vermelho carro de corrida. Hahahaha. Para nós, era como se ele tivesse comprado uma Ferrari. Fiquei tão feliz por ele. Isso me deu a esperança de que eu também conseguiria. Eu via Sonatas nos meus sonhos.

Tudo estava bem. Eu não estava mais sozinho. Estava me aproximando do time principal. E então meu mundo mudou.

Willian Pacho | Mamá, Esta É Para Você | Paris Saint-Germain | The Players' Tribune | Equador
Sofia Calle/Agencia Press South/Getty Images

Um dia, recebi uma ligação de casa. Era uma das minhas irmãs. Ela me disse que minha mãe tinha tirado “aquela coisa”. Sabe, ela sempre teve um caroço debaixo do braço, e os médicos achavam que era benigno. Mas aí começou a incomodar um pouco, e quando removeram…….

Houve um problema.

Eu não entendi muito no começo. Só ouvi “câncer” e fiquei com muito medo, mas minha mãe disse para não me preocupar. Os médicos estavam cuidando de tudo.

“Não venha para casa por minha causa”, ela dizia. “Você está ocupado com o seu futebol.”

Toda vez que eu ligava para ela, ela dizia que estava tudo bem. Ela nunca quis que eu me preocupasse.

Então, em algum momento de 2019, tivemos uma folga, e peguei um ônibus para casa, em Quinindé. Quando passei pela porta, soube que ela estava escondendo a verdade de mim. Minha mãe sempre foi uma mulher grande. Ela tinha uma “presença”. Ela preenchia a casa inteira com a personalidade dela, entende? Uma força da natureza. Dançando, cantando, gritando, limpando a casa, cozinhando, rindo........

Quando a vi dessa vez, ela estava tão magra.

Ela disse: “Não se preocupe, estou bem.”

Eu me forcei a não chorar.

Naquela noite, ela me pediu para ajudá-la com os remédios, tirou a camisa e pude ver que tinham operado ela. Havia um tubo de dreno nas costas dela. O seio esquerdo tinha sido removido. A pele dela estava queimada. Com cicatrizes. Tive que usar todas as minhas forças para segurar as lágrimas.

Eu disse: “Mãe, você está sentindo dor?”

Ela disse: “Estou bem, estou bem.”

Naquela noite, dormi ao lado dela na cama, como quando eu era criança. Quando ela dormiu, chorei a noite toda em silêncio para que ela não se preocupasse.

Alguns dias depois, tive que voltar para a academia, e senti um medo intenso no fundo do estômago.

Eu nunca tiro fotos. Não sei porque, mas não gosto. Então não tenho muitas fotos com a minha mãe no meu celular. Só em coisas como aniversários a gente tirava uma foto.

Quando eu estava arrumando a mala, pensei: Você deveria tirar uma foto com ela.

Mas, por algum motivo, não tive coragem.

Talvez tenha sido a minha maneira de me convencer: “Não, você vai vê-la de novo. Você tem que vê-la de novo. Quando você voltar para casa de novo, ela vai estar muito melhor, e vocês vão poder tirar todas as fotos que quiserem.”

Voltei para a academia. Era uma viagem de ônibus de 8 horas pelas montanhas.

Eu fiquei pensando: Você não pode perdê-la agora. Você ainda tem que comprar uma casa bonita para ela. Uma casa grande, com muito espaço, para que ela possa limpar aos domingos e ouvir Marco Antonio Solís e dançar pela cozinha com o esfregão. Ainda temos tanto a fazer juntos.

Chorei até meus pulmões doerem.

Eu nunca tiro fotos. Não sei porque, mas não gosto. Então não tenho muitas fotos com a minha mãe no meu celular. Só em coisas como aniversários a gente tirava uma foto.

Alguns meses depois, meu treinador me disse que eu iria fazer minha estreia pelo time principal. Liguei imediatamente para a minha mãe para contar a novidade, e ela não atendeu. Isso era normal. Ela nunca ficava com o celular. Eu tinha falado com ela no dia anterior, e ela estava se sentindo exausta.

Ela sempre teve muito orgulho da própria aparência. E ela disse: “Hoje estou me sentindo feia.”

Aquilo partiu meu coração.

Eu disse: “Mãe, você está linda. Não fique pensando bobagem. Apenas descanse um pouco.”

Ela nunca me retornou a ligação. Então enviei uma mensagem para ela que dizia: “Não vá dormir muito cedo amanhã! Vou estrear. Você tem que assistir ao jogo!”

Eu estava tão nervoso que não conseguia dormir. Eu literalmente encharquei os lençóis de suor. Só conseguia pensar nos dois atacantes que teria de enfrentar, que estavam em boa fase.

Finalmente consegui dormir um pouco quando o sol estava nascendo.

Aí acordei com um monte de mensagens e recados de voz da minha família e de amigos. Mensagens demais. Sabe aquela sensação?

Você sabe na hora que algo está errado.

Passei pelas mensagens, e era tudo um borrão. As pessoas estavam falando da minha mãe e do quanto a amavam. Estavam prestando condolências. Estavam rezando por mim.

Willian Pacho | Mamá, Esta É Para Você | Paris Saint-Germain | The Players' Tribune | Equador
Franck Fife/AFP via Getty Images

Liguei para a minha irmã em pânico. 

Eu disse: “Mãe?! Mãe!? O que aconteceu?!”

Ela disse: “O quê? Não seja louco. É só um boato. Ela está bem. Você sabe como as pessoas são neste bairro. Não fazem ideia do que está acontecendo. Uma ambulância levou ela do hospital para casa, e foi isso que viram. Ela está descansando. Não se preocupe. Ligue para nós depois do jogo.”

Ela foi tão convincente. Eu acreditei totalmente nela. Fui para o jogo e meu último pensamento antes de entrar em campo foi: A mamãe está te assistindo pela TV. Você tem que ganhar cada disputa de bola por ela.

Lembro que joguei muito bem. Não tomamos nem um gol. Eu mal podia esperar para fazer uma chamada de vídeo com ela.

Quando eu estava saindo do campo, meu treinador me pegou pelo braço e me levou para uma sala pequena ao lado do vestiário com a psicóloga do time. Achei que eles fossem me parabenizar e me dizer para manter a humildade. Quando abriram a porta, meu pai e meu cunhado estavam me esperando.

O que está acontecendo?!

Eles me disseram que minha mãe se foi. 

Ela faleceu naquela manhã.

Eles sabiam o dia todo. Todo mundo. Meu técnico, minha família......

Eles esconderam isso de mim para que eu pudesse realizar meu sonho. Eles pensaram que era isso o que ela gostaria.

Eu gritei de dor, como nunca tinha gritado antes.

Nunca me senti tão sozinho.

Por que a pessoa que eu mais amo foi tirada de mim? A única pessoa em quem eu realmente podia confiar. A minha razão para tudo. Por que ela? Por que, por que, por que, por que?

Apenas…… Por quê?

Eles me disseram para ir me trocar, mas eu disse: “Não, me levem até ela agora.”

Willian Pacho | Mamá, Esta É Para Você | Paris Saint-Germain | The Players' Tribune | Equador
Nelson Antoine/Getty Images

Continuei com o meu uniforme sujo e fizemos a viagem de volta para casa, através da Cordilheira dos Andes. Se você nunca esteve no Equador, não consegue imaginar como é dirigir pelas estradas nas montanhas à noite. Você está em uma montanha-russa no escuro. Não há guard-rails. Quando você tem que parar para fazer xixi, você está mijando na beira do mundo.

Lembro que eu tinha que parar toda hora. Parecia que era a cada 30 segundos.

“Desculpa, para o carro.”

Eu tinha ficado tão nervoso achando que teria cãibras durante o jogo que bebi uma tonelada de água. Na primeira vez que paramos, fui até a beira do precipício e fiquei dizendo para mim mesmo: “Isso deve ser um sonho. Ela não pode ter morrido de verdade.”

Então, na segunda vez que paramos, olhei para além da margem e estava tudo completamente escuro. Apenas o abismo. E tive um pensamento muito sombrio.

“...........E se eu fizesse alguma coisa agora?”

Não. Qual é.

“E se eu simplesmente desse um passo para fora da beira? Tudo isso iria embora.”

Não. Qual é. Não seja louco.

“Mas como eu posso continuar sem ela? Eu poderia me juntar a ela. Seria tão fácil. Só um passo.”

Na quarta vez que paramos, cheguei um pouco mais perto da beira. Eu estava com tanta dor que nem conseguia mais chorar.

Lembro de olhar para baixo, para o abismo, e apenas pensar....

Mamá, não quero estar aqui sem você.

Willian Pacho | Mamá, Esta É Para Você | Paris Saint-Germain | The Players' Tribune | Equador
Lars Baron /UEFA via Getty Images

Finalmente, meu cunhado e meu pai perceberam que havia algo de errado comigo. Eles nem disseram nada, mas depois disso, toda vez que parávamos, eles me levavam até a beira e me seguravam. Agradeço a Deus por eles. Não sei se eu teria realmente pulado……

Mas só de pensar nisso fico muito assustado, até hoje. Eu entendo que arrisco muito como jogador de futebol ao contar essa história, mas estou contando para todas as crianças por aí que perderam um pai ou uma mãe ainda jovens.

É uma ferida que só nós podemos entender. Uma ferida que nunca sara.

Chegamos em casa no início da manhã. Nossa casa ficava no final de uma rua sem saída, e estava lotada de carros de pessoas que vinham de todos os lugares para se despedir dela. Havia tantos carros que tivemos que estacionar longe. Saí do carro e caminhei pela nossa rua, ainda de uniforme.

Todo mundo saiu de suas casas para me abraçar. Eles estavam em filas dos dois lados da rua. E quanto mais pessoas eu via, e quanto mais nos aproximávamos da casa, mais aperto eu sentia no meu peito. Eu não queria chegar em casa, porque chegar significava que era real.

Lembro de pensar: Minha mãe andava por essas ruas todos os dias. Ela andou aqui quando era jovem, e como mãe, e andou aqui a caminho da casa de Deus.

Quando chegamos e senti o cheiro da minha casa, eu nem conseguia mais chorar. Mal conseguia respirar. Era como se eu tivesse um nó na garganta. Tudo o que eu conseguia fazer era tossir.

Entrei e me deitei na cama dela, e todas as lembranças voltaram para mim.

As lembranças te invadem como ondas.

As roupas limpas. As refeições quentes. Os livros para a escola. As chuteiras Venus.

Sempre provendo, sempre me dando o melhor que podia.

Sem ela, a vida não tinha sentido.

Não saí do quarto dela por uma semana.

Quando finalmente deixei o quarto dela, eu era um homem mudado.

Não saí do quarto dela por uma semana. Quando finalmente deixei o quarto dela, eu era um homem mudado.

Tentei conversar com a psicóloga do nosso time, mas não conseguia colocar em palavras para uma estranha o que eu estava sentindo. É mais fácil escrever sobre ela, só para mim, como estou fazendo agora.

A única terapia que funcionou para mim foi o tempo e o futebol.

Depois da morte dela, uma coisa estranha aconteceu. Perdi todo o meu medo no campo de futebol. Antes, eu era um jogador mais tranquilo. Não gostava de contato. Eu não tinha esse instinto de ‘devorar o mundo’.

Quando ela morreu, fui consumido por raiva, impotência, dor.

No meu primeiro jogo de volta, primeiro lance – pum, cartão amarelo. Cinco minutos depois – pum, cartão vermelho. Voltei para casa e não queria jogar nunca mais.

Eu tinha que colocar aquilo para fora de algum jeito. Então eu 'sangrei’ no gramado.

Willian Pacho | Mamá, Esta É Para Você | Paris Saint-Germain | The Players' Tribune | Equador
Cortesia de Willian Pacho e Jose Jacome /Getty Images

Me lembro de pensar: Quando ela estava em seus últimos momentos na terra, você estava deitado na cama se preocupando com um jogo de futebol. Que ridículo se preocupar com um jogo.

Isso colocou tudo em perspectiva para mim.

Em vez de jogar com meus medos, joguei com fome. Eu engoli o mundo.

No futebol, você precisa desse tipo de frieza. Gostaria que não fosse verdade, mas é.

Evoluí meu futebol para outro nível no Independiente nos dois anos seguintes. Em 2021, recebi a notícia de que o Borussia Mönchengladbach queria me contratar. Para ser sincero, eu nem sabia onde ficava. Só sabia que era a Bundesliga e disse: “Estou pronto. Quando é o voo?”

O negócio iria demorar um pouco para ser finalizado, mas todos me disseram que estava certo.

Fui à concessionária de carros para comemorar. Eu ia comprar um carro maneiro como o do Moisés. Ele não seria o único craque da cidade. Eu ia pegar um Kia Sport! Tirei uma foto ao lado de um e tudo mais.

Aí aconteceu uma coisa engraçada. Um cara aparece na concessionária e diz: “Ah, você está olhando carros? Bom, sou corretor de imóveis. Que tal uma casa?”

Naquele momento, pensei na minha mãe e na casa que eu sempre quis comprar para ela. Parecia uma mensagem de Deus. Ele me mostrou algumas fotos e uma das casas tinha uma varanda linda.

Não sei por quê, mas adoro varandas. Quando você cresce em uma casa pequena e apertada, uma varanda é algo muito especial.

Eu disse: “Quero essa.”

Eu não pude dar uma casa para a minha mãe, mas podia dar uma para os meus irmãos. Isso a deixaria muito orgulhosa.

Eu disse a eles: “Estou indo para a Alemanha, mas deixo vocês com esse presente. A mamãe sempre dizia que o futebol não pode colocar um teto sobre a sua cabeça. Mas olhem para a gente agora.”

A semana em que meus irmãos estavam se mudando foi provavelmente a mais feliz da minha vida. Eu simplesmente fiquei na varanda, senti o ar fresco e disse: “Estamos bem. Não importa o que aconteça, estamos bem.”

Todos nós tiramos uma foto juntos. Demais.

Eles nos deixaram entrar sem pagar o valor total. Quando os alemães dizem que um negócio está fechado, está fechado.

………..Aí foi tudo para o inferno.

Willian Pacho | Mamá, Esta É Para Você | Paris Saint-Germain | The Players' Tribune | Equador
Alex Pantling/FIFA via Getty Images

Meu empresário recebeu uma ligação do Borussia Mönchengladbach. O negócio tinha melado. Houve um problema financeiro do lado deles e eles não conseguiram concluir a transferência a tempo. Foi humilhante.

Eu ainda devia 50% da casa. Ia cobrir o restante com o meu novo contrato. Eu tinha feito uma grande despedida no clube, passou na TV e tudo. Eles já tinham até comprado um zagueiro substituto para mim.

Quando voltei a treinar, alguns dos meus companheiros de equipe até riram de mim.

“Ahhh, lá vem a estrela da Bundesliga.”

Sinceramente, sem o nosso técnico, minha vida poderia ter sido completamente diferente. Ele é um homem incrível. Como uma figura paterna para mim. Ele poderia ter me encostado. Mas me disse: “Não se preocupe, sua vaga ainda está aqui.”

Tudo certo? Não.

Afundei ainda mais na lama.

No meu segundo jogo de volta após o fim do negócio, desloquei meus dois ombros. Na verdade, um deles estava deslocado desde que eu era criança. Eu só fiquei bom em colocá-lo de volta no lugar. Naquele dia, os dois saíram ao mesmo tempo.

O médico me disse que teria que fazer uma cirurgia de cada vez. Levaria um ano até eu estar 100%. Eu disse: “Doutor, não posso esperar. Por que não faz as duas agora?”

Ele disse: “Porque você não vai poder usar nenhum dos braços por meses. Não vai conseguir nem se lavar.”

Eu disse: “Vamos fazer as duas.”

E assim fizemos as duas. E eu me tornei como um recém-nascido de novo. Precisava ser alimentado. Precisava de ajuda no banho. Não conseguia nem limpar minha própria bunda. Minha irmã é uma verdadeira heroína. Ela foi minha enfermeira por meses.

Se uma mosca pousasse no meu nariz, eu tinha que chamá-la para espantar. Eu estava indefeso.

Finalmente, no meu momento mais difícil, Deus sorriu para mim.

O Royal Antwerp me comprou.

Na verdade, eles me compraram antes mesmo de eu poder voltar a treinar. Sempre serei muito grato a eles. Eles apostaram em um homem destruído.

Willian Pacho | Mamá, Esta É Para Você | Paris Saint-Germain | The Players' Tribune | Equador
Tom Goyvaerts/Belga Mag via Getty Images

Mas, para ser sincero, foi o momento mais difícil da minha vida. Fui para a Bélgica ainda enfaixado, sem falar inglês nem francês. Tinha que treinar sozinho e ninguém falava comigo. O único que teve pena de mim foi o preparador físico, que por acaso falava espanhol. Ele era meu único amigo. Lembro de mandar mensagem para o Moisés: “Agora entendo tudo o que você passou quando foi para a Inglaterra. Lembra de quando você me ligava toda noite chorando? Agora sou eu que estou chorando, irmão.”

Acho que é por isso que você não ouvia falar de tantos equatorianos na Europa até agora. A solidão e o isolamento são muito reais, especialmente se você não tem companheiros de equipe que falam espanhol. Eu facilmente poderia ter desistido e voltado para casa.

Mas eu ficava dizendo para mim mesmo: “Você não pode deixar essa depressão vencer. Faça isso pela Mamá. Ela não gostaria de te ver chorando.”

Ela nunca demonstrava suas emoções na minha frente. Mas depois que ela morreu, minhas irmãs me disseram: “Sabe, quando você foi crescendo no futebol, a Mamá sempre chorava vendo o seu sucesso. Ela nunca fazia isso na sua frente, mas tinha muito orgulho.”

Vencemos o título belga naquela temporada. O primeiro do clube em 66 anos. Lutei para sair do isolamento e chegar ao time titular. Transformei lágrimas de dor em lágrimas de alegria.

Ei, Mamá, o que nós sempre fazemos? Nos deem os restos, e nós os transformamos em um banquete.

Quando fui vendido para o Frankfurt, eu sabia que minha vida iria mudar. Mas não esperava que tudo fosse acontecer tão rápido. Depois de uma boa temporada lá, meu empresário me disse que o PSG queria se reunir comigo.

Quando você ouve PSG, você nem pensa. Você sai do telefone e procura por voos. Pode ser de Ryanair mesmo. Quando é o próximo? Vamos.

O Luís Campos me convidou para um jantar secreto em Madri, e foi num restaurante subterrâneo, como nos filmes. Em cinco minutos, ele disse: “Espera aí, alguém quer falar com você.”

Ele colocou o Luis Enrique no FaceTime.

Foi muito legal. O Luis Enrique tem um jeito só dele. Uma aura, eu acho. Para mim, ele é a chave de tudo o que eu conquistei no PSG. Digo isso como homem, não como jogador de futebol. Ele fala muito pouco, mas quando fala, você sente que ele te entende como pessoa.

Willian Pacho | Mamá, Esta É Para Você | Paris Saint-Germain | The Players' Tribune | Equador
Jose Breton/NurPhoto via Getty Images

Para mim, depois de tudo o que passei, ele é exatamente o tipo de treinador que eu precisava.

Ele me disse quando me trouxe: “Vá no seu próprio ritmo. Não sinta que precisa provar nada a ninguém só porque te compramos. Você ainda precisa evoluir.”

Ao me dar tempo, ele tirou a pressão. Ao me dar tempo, eu explodi.

Eu nunca poderia esperar virar titular tão rápido.

Eu nunca poderia esperar dois títulos da Liga dos Campeões em duas temporadas.

Eu nunca poderia esperar o carinho que recebi dos torcedores.

Foi de “51? Quem é o 51?”

Para “PACHO! PACHO! PACHO!”

Willian Pacho | Mamá, Esta É Para Você | Paris Saint-Germain | The Players' Tribune | Equador
Maja Hitij/UEFA via Getty Images

Nunca vou esquecer de estar no FaceTime com meus irmãos antes da final da Liga dos Campeões contra a Inter. Eles disseram: “Não importa o que aconteça, nós vamos te amar. Tudo o que você precisa fazer é brigar por cada bola. Não se preocupe com o que vem depois.”

Aos 20 minutos, cabeceei a bola de volta para o nosso gol e ela ia sair para escanteio, e eu disse: “Não, você não pode perder nem uma única bola. Você prometeu.”

Pulei por cima do jogador da Inter como se estivesse num filme de kung-fu. Todo mundo posta essa minha foto agora, porque salvei a bola e isso iniciou o contra-ataque para o nosso segundo gol.

As pessoas me perguntam: “Mano, o que você estava pensando quando foi naquela bola?”

A resposta é nada. Eu não estava pensando. Eu estava apenas jogando sem medo.

Agora você conhece a minha história e sabe de onde isso vem. Vem de um lugar de dor e luto.

Mas eu cheguei do outro lado, na luz.

Quando o jogo acabou e fomos campeões, a primeira coisa que disse a mim mesmo foi: Obrigado, Deus. Obrigado, mãe.

Se ao menos você pudesse ver isso.

Willian Pacho | Mamá, Esta É Para Você | Paris Saint-Germain | The Players' Tribune | Equador
Jonathan Moscrop/Getty Images

Ser o primeiro garoto do Equador a vencer uma Liga dos Campeões é algo muito especial. Nós não somos argentinos ou brasileiros, sabe?

Antes, ninguém nos conhecia. Não conseguiam nos encontrar no mapa.

Agora estão começando a entender a nossa qualidade.

Não apenas eu, mas caras como o Moisés e o Piero, e claro, o Antonio Valencia, que foi um modelo para todos nós.

Eu me pergunto o tempo todo: “Por que nós?”

Como conseguimos vencer? Como somos nós que estamos jogando uma Copa do Mundo, quando tantos jogadores talentosos que vi crescendo nunca conseguiram?

Eu nem tenho uma resposta. Só tenho gratidão aos treinadores que me ajudaram e à minha família. Acima de tudo, à minha mãe.

Willian Pacho | Mamá, Esta É Para Você | Paris Saint-Germain | The Players' Tribune | Equador
Xavier Laine/Getty Images

É para ela que eu gostaria de falar agora. Só para ela.......

Mamá,

Obrigado por me ensinar a dançar bachata. Obrigado por me ensinar o valor dos restos. Obrigado por sempre dar a todos uma boa fatia.

Obrigado por me comprar tantos pares de chuteiras. Obrigado por não se importar nem um pouco com futebol.

Obrigado por ser minha mãe.

Nunca consegui tirar uma última foto com você. Mas tenho uma imagem muito melhor na minha cabeça, e volto a ela todos os dias.

Eu sou jovem. Você também é jovem. Estamos dançando juntos.

Um dois três, um dois três.........

Eu olho para cima, e você está sorrindo para mim.

Eu finalmente consegui.

É melhor do que uma foto. É uma lembrança. É eterno.

Do seu filho,

Willian

VEJA MAIS

Yan Diomande fala sobre a vida de sua irmã, Roxane: “Escrevi isso porque não consigo falar sobre o assunto. Escrevi isso porque quero que você saiba que vou garantir que você continue vivendo."

Yan Diomande

Victor Osimhen: “Pela graça de Deus, eu consegui. Que a minha história seja prova para essas crianças.”

Victor Osimhen